Impressiona notar o interesse sempre existente…

Impressiona notar o interesse sempre existente na literatura contemporânea, encontrado mesmo em autores conscientes de que a grande literatura é, por definição, atemporal. Notar que, havendo dezenas de séculos que não serão absorvidos, milhares de obras que não serão lidas por simples falta de tempo, o interesse pelo coevo ainda viceja, e obras coevas granjeiam uma atenção que não têm a maioria daquelas seculares, já consagradas pela prova do tempo. Como explicar que não seja o oposto a ocorrer? Como explicar que o comum não seja um quase desespero por absorver o essencial destas dezenas de séculos e milhares de obras? Para nada disso parece haver explicação racional.

Parnaso de além-túmulo, de Chico Xavier

É uma piada o deparar-se com eruditos mais impressionados com a presença de epênteses ou diéreses em determinados poemas desta obra, do que com as circunstâncias absolutamente extraordinárias em que foram eles concebidos, diante de dezenas de testemunhas oculares as mais variadas. Se esta obra impossível não valida o processo humildemente exposto pelo autor, então decerto nada o validará jamais, pelo simples motivo de ser repugnado a priori por detratores indispostos a reconhecer no próximo capacidades que não têm. Um único soneto, feito intempestivamente num jato, cuja ideia se concatena na métrica e as rimas satisfazem, já seria motivo suficiente para deixar boquiabertos todos aqueles que se arriscaram alguma vez a escrever algum. E disso, então, que dizer? Só mesmo a inveja, ou o mais absoluto dos fanatismos para aventar palavras de descrédito ao autor.

Certa vez, há uns bons anos…

Certa vez, há uns bons anos, anunciaram-me ter ouvido uma música cujo peso era tão tremendo, tão sombrio e tão dramático que parecia encerrar algo de infernal. Era Prokofiev. Reconheci a música de imediato e sorri. Em seguida, para evidenciar que aquilo nada tinha de exageradamente tremendo, sombrio ou dramático, reproduzi uma faixa do Réquiem. Na primeira nota, o assombro e a certeza, escancarada por um contraste esmagador. Idêntica sensação repetiu-se na noite de ontem quando, após quatro anos, retorno ao meu romancista preferido, ao autor ao qual mais horas dediquei e do qual não posso separar-me. No mesmo dia, havia encerrado uma obra de Thomas Bernhard, uma obra em que a mesma técnica é exaustivamente empregada a fim de expressar tensão psicológica, aflição, inquietude, desespero, e sabe-se lá mais o quê. Então, Dostoievski. Não é preciso dizer mais nada.

A superioridade de Tolstói e Dostoiévski

A superioridade de Tolstói e Dostoiévski sobre os demais romancistas não é a técnica e nada tem que ver com a técnica, o que demonstra que, em literatura, ela não prepondera sobre a motivação artística, esta sim a essência de uma obra. O que se nota nos romances de ambos é que, lendo-os, sentimo-nos inteiramente absorvidos pela narrativa e uma infinidade de ideias movimentam-se em nossa mente, mas nunca aquelas relacionadas aos artifícios da narração, que passam como despercebidos, a menos que nos proponhamos a exclusivamente analisá-los. São ambos superiores porque superiores são suas motivações.