A literatura é uma ocupação dificílima

A literatura é uma ocupação dificílima porque, em geral, seus resultados não se fazem palpáveis. Daí que pareça, diante de uma “ocupação prática”, inteiramente inútil. E ainda que assim não seja, é assim que parece ao escritor que diariamente trabalha, isto é, a rotina de criação invisível faz brotar uma sensação de inutilidade difícil de dominar, sensação muito agravada pela realidade palpável de que a obra recém-criada ninguém afeta, ninguém estimula, e frequentemente não é sequer notada por ninguém. Mas aqui está o brilhante paradoxo: quanto mais inútil pareça a literatura, tanto mais é autêntica. E o grande escritor completa-se vencendo as aparências e deixando como legado o seu exemplo de superação.

Observa-se por vezes naquele experimentado…

Observa-se por vezes naquele experimentado em literatura a capacidade incomum de distanciar-se de si mesmo para analisar-se, isto é, de ver-se como em terceira pessoa, imaginando-se personagem de um romance, não idealizando a própria vida, mas enxergando-se como alguém que decide e colhe os frutos das próprias decisões. Queira, também, idealizar a própria vida, e então será capaz de medir o quanto aproxima-se ou distancia-se daquele que tenciona ser. Em ambos os casos, consegue sobretudo conhecer-se num nível que, sem o conhecimento aprofundado da dinâmica das biografias, é muito difícil de alcançar.

Se o autor é sincero e fiel à sua experiência…

Uma infinidade de exemplos demonstra que, se o autor é sincero e fiel à sua experiência, fiel à sua motivação artística, a obra que cria jamais se enquadra em modelo nenhum. Ela sai, é claro, com traços que evidenciam mais ou menos suas influências, mas vem também carregada de uma ambiguidade, de uma singularidade toda especial. Ainda que falhe na expressão, ainda que lhe falte estro para concretizar o planejado, a obra sempre terá no íntimo aquela sinceridade sem a qual não se faz arte duradoura. E isso é o principal.

Sobre Lima Barreto

Lima Barreto é dos autores brasileiros mais comentados. E praticamente tudo quanto se diz sobre sua obra é falso, ou, pelo menos, temos dela uma visão radicalmente distinta quando simplesmente a lemos, dispensando os intermediários. Dizê-lo parece ocioso, não houvesse tantos autores que sobrevivem por uma imagem fabricada. Sobre a obra de Lima Barreto, as virtudes alegadas, são todas elas concebidas para se encaixar numa visão de mundo simulada; os defeitos, não servem senão para esconder o que há nela de significativo. Falseiam-lhe mesmo a biografia, que não deixa dúvidas quanto à autenticidade da motivação literária, a despeito de quanto mais se pode dizer. Afinal, o que há de ser feito é analisar-lhe na obra o que há de sincero; e quando o fazemos, a conclusão é só uma: Lima Barreto honra a profissão de escritor.