Se Adonias Filho tivesse publicado este pequeno romance em qualquer outra língua, que não o português, e em qualquer outro país, que não o Brasil, teria o seu nome aventado para receber as maiores honrarias literárias do planeta. Sendo brasileiro, é claro que isso não ocorreu. Tanto faz… Este livro, no entanto, tem as peculiaridades que caracterizam a obra-prima. E torna interessante mesmo aquela temática antiga, trabalhada tão artificial e infelizmente por autores do passado: aqui, desaparece a natural antipatia para com ela. De resto, basta dizer o seguinte: pela escrita excelente, pela técnica narrativa estimulante, pela intensidade ímpar da história e pela realidade dos personagens, este é um dos melhores romances que a literatura brasileira já produziu.
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Diz Stefan Zweig, em sua Autobiografia…
Diz Stefan Zweig, em sua Autobiografia:
Tão simples como a vida dos pintores era a dos poetas, de quem logo me tornei íntimo. Em geral, tinham pequenos cargos públicos em que havia pouco trabalho positivo; o grande respeito pela realização intelectual, que na França se estendia dos postos mais baixos até os mais elevados, havia muitos anos produzira o método inteligente de dar sinecuras insignificantes a poetas e escritores que não tiravam altos rendimentos do seu trabalho; eram nomeados, por exemplo, bibliotecários no Ministério da Marinha ou no Senado. Isso garantia um pequeno salário e só dava pouco trabalho, pois os senadores muito raramente pediam um livro, e assim o feliz proprietário de uma dessas prebendas podia escrever seus versos durante o expediente com tranquilidade e conforto no velho palácio do Senado, tendo o Jardim de Luxemburgo diante da janela, sem jamais se preocupar com honorários. E essa modesta garantia lhes bastava.
Ora, mas é claro que lhes bastava! Oh, Deus! É preciso ornar tal relato com as devidas exclamações! O que tais poetas tiveram foi, sem dúvida, uma condição paradisíaca. E é inevitável cotejá-lo com toda a angústia espraiada pela literatura brasileira, toda a angústia, a bem dizer, não motivada senão pela falta de uns tostões garantidos no fim do mês, a qual, valendo-se da natureza demoníaca do dinheiro, desencadeia um processo inacreditável de constrangimentos, obstáculos e perturbações, que acaba por meter o mais sereno, o mais modesto dos seres neste atroz desconsolo, diante do qual todo o esforço prévio, todo o valor cultivado, toda a pureza de intenção parece se eclipsar. É o óbvio: frequentemente, a diferença entre a serenidade e o desespero não é mais do que uma destas insignificantes “prebendas”.
Decerto, minha sorte foi ter devorado…
Liberdade… Decerto, minha sorte foi ter devorado livros de finanças antes de descobrir a literatura, quer dizer, ter entendido a mecânica do dinheiro antes de cometer a insanidade de largar tudo para me tornar escritor. Assim, pude fazer algo que ninguém me ensinaria: estruturei um plano financeiro, paralelo ao plano de estudos para me capacitar a escrever. Preparei-me, através de um planejamento que ainda segue, para chutar o balde com segurança. Será que houve, alguma vez, escritor sem recursos com a mesma sorte? Fui salvo por esta circunstância especialíssima. Sem ela, se eu tivesse entrado em contato com esse papo de liberdade, acabaria muito, muito mal.
Disgrace, de J. M. Coetzee
Esta narrativa perturbadora é perpassada por uma apreensão indescritível, que nunca cessa à medida que a história avança. Lateja o sentimento de que algo está por acontecer, algo terrível, chocante, e contra a iminência se experimenta um impulso de fazer algo, de fazer qualquer coisa, o qual é repetidamente frustrado. Nada se faz; e, então, a narrativa nos vai carregando para os acontecimentos, como contrariando a nossa vontade de evitá-los, embora estejamos, simultaneamente, ansiosos por conhecê-los e matar de vez a apreensão. É uma construção interessante; o estilo do autor desaparece perante as cenas que descreve. Sobretudo, é um livro ao qual não se fica indiferente e que, talvez, encerre uma importante lição.