O sofrimento dá peso às palavras

De Lavelle:

D’abord, la douleur n’est pas seulement une simple privation d’être, ou diminution d’être. Il y a en elle un élément positif qui s’incorpore à notre vie et qui la change. Chacun de nous ne songe sans doute qu’à rejeter la douleur au moment où elle l’assaille ; mais quand il fait un retour sur sa vie passée, alors il s’aperçoit que ce sont les douleurs qu’il a éprouvées qui ont exercé sur lui l’action la plus grande ; elles l’ont marqué : elles ont donné à sa vie son sérieux et sa profondeur ; c’est d’elles aussi qu’il a tiré sur le monde où il est appelé à vivre et sur la signification de sa destinée les enseignements les plus essentiels.

Aqui, fica justificada a alegada afirmação de Dostoiévski de que, para escrever bem, é preciso sofrer. O sofrimento dá peso às palavras; sua experiência molda o caráter e a compreensão. Quando intimamente experimentado, impõe-se. Por isso, não é preciso que o leitor tenha experiências semelhantes para apreciar uma obra artística: da condição humana exposta com autenticidade porque autenticamente vivida, brota o respeito, que abre a porta para a identificação.

Certamente, não são de Góngora ou Lope de Vega…

Certamente, não são de Góngora ou Lope de Vega poemas como Salmo I, La hora de Dios, El buitre de Prometeo, Alborada espiritual, ¡Perdón!, Vencido, Las siete palabras y dos más, ou sonetos como Al destino, Fe e Resignación. E se, neles, Unamuno mostrou-se “mais filósofo que poeta”, qual seria, pois, a qualidade poética de que tais versos carecem? Ou ainda: em qual sentido a verve poética daqueles autores seria superior à de Unamuno? A verdade é que, nos referidos poemas, a expressão não poderia ser mais vigorosa, nem a motivação mais autêntica. E se isso não coloca Unamuno no primeiro escalão dos poetas espanhóis, talvez seja conveniente criar um novo grupo para inseri-lo — e será este o grupo dos poetas cuja leitura é mais significativa para o leitor.

Ortega y Gasset, Antonio Machado, Pío Baroja…

Ortega y Gasset, Antonio Machado, Pío Baroja… a literatura espanhola deu-me leituras memoráveis. Nenhuma, contudo, provocou-me sentimento parecido ao que experimentei após o contato com Unamuno, o qual pareceu-me um familiar. Há, nas letras, casos assim: uma fronteira separa a admiração, a empatia, o apreço, deste sentimento inconfundível de identificação. E é sempre especial ver num autor um membro da própria espécie, cujas inquietações são aquelas intimamente sentidas, cuja expressão vocaliza algo que se poderia dizer. Raro, mas quando ocorre evidencia que não há individualidade intransmissível; sempre houve e sempre haverá semelhantes que, através da literatura, possam compreender.

O atributo que se tornou mais característico…

O atributo que se tornou mais característico do português escrito é a utilização apurada dos pronomes, o que já não se vê no português falado, salvo em algumas poucas regiões. Tal domínio, sozinho, pode transformar um texto canhestro em elegante, algo ostensivamente perceptível em traduções. O tradutor inabilidoso, o escritor inabilidoso, não conseguem se valer dos pronomes para dotar os períodos da concisão e do estilo possibilitados pelo idioma, e o resultado é que um discurso gramaticalmente correto, uma tradução semanticamente precisa, soem como mal escritos em português. Talvez, não haja outro elemento da técnica que transmita mais inteligência a um texto, nem outro elemento sobre o qual o estudo dos clássicos mais tem a instruir.