No fenômeno da psicografia…

No fenômeno da psicografia, nada impressiona tanto quanto a indiscutível qualidade literária de alguns textos, que justifica inteiramente o processo. A inteligência que se expressa com elegância e clareza prova-se, pela forma, merecedora de atenção. A expressão a sustenta e reclama o direito de apreciação zelosa, isenta de prejulgamentos, tal como se deve fazer com todo aquele cuja lucidez patenteia haver, no mínimo, ela mesma a se transmitir.

“O ordálio mais tremendo”

É sem dúvida impressionante que Carpeaux tenha dito, em entrevista, considerar o fato de ter aprendido “mais ou menos” a língua portuguesa “o ordálio mais tremendo a que a vida me submeteu”. Quer dizer: tal foi dito por um eruditíssimo poliglota, versado em praticamente todas as línguas europeias: algo que evidencia a imensa barreira que há entre estas e o português. Credita Carpeaux ao seu conhecimento de latim o conseguir adaptar-se ao novo idioma, e disso se pode inferir que a sintaxe vernácula apresenta complicações terríveis a um moderno não versado nas línguas antigas. E além disso, a prosódia, os indomáveis e imprevisíveis fonemas, a ortografia confusa, e por aí vai. A dizer a verdade, talvez seja algo assaz positivo o ter-se em português preservado grande parte do brilho da sintaxe latina; contudo, não se pode negar que o correr dos séculos demonstra que o português, ao contrário das demais línguas europeias, afastou-se em vez de aproximar.

A importância de Péricles Eugênio da Silva Ramos

A importância de Péricles Eugênio da Silva Ramos para a versificação portuguesa ainda não foi devidamente estabelecida. Seus ensaios estão entre o que de melhor já se escreveu sobre o tema, e é curioso observar que todos eles resumem-se à exposição de observações decorrentes de um estudo sério. Dizendo assim, parece pouca coisa; mas há ensaios que, em cinco páginas, esclarecem e desfazem o erro de outras tantas centenas que integram o acervo da língua portuguesa. Estudar e divulgar as descobertas do estudo: uma fórmula simples que, pela repetição sistemática, colocou Silva Ramos entre os mais importantes estudiosos da poesia portuguesa.

A língua entranha-se no próprio pensamento

Nunca escrevi uma linha em inglês, entre as centenas de milhares já saídas de minha cabeça, que não fosse a tradução de um pensamento concebido em português. Nem mesmo num e-mail. E imaginar a batalha travada por tantos escritores do último século, que adotaram voluntariamente uma nova língua para criar literatura… Não se pode conceber um escritor para o qual a língua se limite a um veículo de expressão. A língua entranha-se no próprio pensamento, que através dela se constrói. A estrutura lógica do pensamento não se calca senão na estrutura sintática da língua em que é modelado; são ambas inseparáveis, não podendo a primeira medrar sem a segunda. As palavras, em diferentes línguas, sucedem-se e organizam-se de maneiras distintas; uma evidência não de uma diferença formal, mas de uma distinção entre o gênio dos homens que nelas se desenvolvem. Alterá-lo, já velho, parece um choque de tremendas proporções.