A discussão sobre a cesura

A discussão sobre a cesura pode facilmente ser suprimida da versificação portuguesa, sem prejuízo nenhum para a compreensão da técnica poética. O querer abordá-la, aliás, é o erro em que recaíram muitos estudiosos, que acabaram por meter-se em situações dificílimas, visto não haver que falar em cesura ante versos balizados apenas pela contagem silábica, como a maior parte dos praticados em português. Nestes versos, o risco de falar em cesura é confundi-la, como tantos fizeram, com o simples acento. A cesura só se justifica quando corta, e cortar é separar, dividir, estabelecer limites dentro do verso. Faz sentido enquanto impacta a técnica construtiva, e é absolutamente ociosa quando não indispensável para a sua compreensão. Em português, o que se percebe é que, salvo nos chamados versos compostos, pouco praticados e muito condenados por incompreendidos, nos quais hemistíquios independentes exigem uma cesura clara que os delimite e lhes faça a técnica inteligível, não há necessidade de se falar em cesura, e assim evita-se muita confusão.

 

Passam sem deixar legado…

É um fato espantoso este de que, no Brasil, os poucos grandes intelectuais, os verdadeiramente grandes, passem sem deixar legado. Talvez seja algo único a nível mundial. Em todos os países onde se pensa e se escreve, é possível traçar precursores e sucessores, é possível colocar numa linha do tempo os grandes nomes e seus influenciados, é possível, em suma, notar que um grande espírito ecoa e ecoa vistosamente após morrer. No Brasil, não. No Brasil o grande intelectual desaparece tão espetacularmente como surge. Nem um Nelson Rodrigues, de sucesso estrondoso e inédito, foi capaz de transmitir algo de si a outra cabeça pujante. Morreu como morreram os outros: enterrando consigo o gênio criador.

Os velhos tratadistas

É divertido imaginar como reagiriam os velhos e rigorosíssimos tratadistas dos séculos XVIII e XIX caso soubessem que em pouco viria à luz, sob aplausos nunca dantes testemunhados, uma poesia cuja receita resume-se a dizer tolices em versos sem métrica, sem ritmo, sem pontuação e sem maiúsculas. E imaginá-los a cotejar as tão criticadas insubmissões românticas com isto! Mas o mais curioso, e talvez demasiado patente para ser ignorado, é não ter o fenômeno se resumido à poesia, abrangendo também e a música e ainda mais escandalosamente as artes plásticas. Impôs-se o homem comum e impôs a todas as esferas as suas preferências, as suas capacidades e a sua visão de mundo. Reclamou para si todos os meios, apropriou-se do melhor posto em todas as funções. É consumada a vingança após tantos séculos de opressão!

Auto de fé, de Elias Canetti

A impressão que ficamos quando, logo no início deste romance, deparamo-nos com uma cena espetacular em que o protagonista, o professor Peter Kien, é abordado na rua enquanto pensa, ou melhor, é insistentemente demandado por um estranho, até que este, ignorado, toma a liberdade de empurrá-lo, porque julga-se no direito de reclamar atenção para si, a impressão que ficamos é de estarmos diante de um espírito superior. Afinal, quantos seriam capazes de conceber uma cena como esta? imaginar que pode haver um ser humano que pensa enquanto está em silêncio, e que o próprio silêncio não é, para alguns, a expectativa da comunicação? Assim, já ficamos tentados a reconhecer Canetti como legítimo dignatário da Grande Igreja. E criamos, também, uma exagerada expectativa quanto ao professor Kien. Daí que o romance converte-se numa sequência torturante, num aniquilamento progressivo e impiedoso, até que não resta o menor resquício daquela personalidade que a princípio nos impressionou. É um grande romance, não há dúvida, e há pontos em que a sequência de absurdos curiosamente confere realidade aos personagens, cujas obsessões parecem atirá-los todos num estado de semiconsciência, cujas tensões psicológicas parecem colocá-los sempre a um fio de um colapso. Que mais se pode dizer? A técnica discursiva, determinado momento, cansa; mas não é falsa e é eficaz: a prova disso é que sentimo-nos tentados a dar um tiro em cada um dos personagens, tal como frequentemente ocorre com seres humanos reais. A obra, contudo, cairia melhor no teatro… E resta-nos somente reconhecer no autor a qualidade que tanta falta faz aos seus personagens: a lucidez.