Um escritor brasileiro, ainda que tenha “sucesso”, provavelmente nunca conseguirá, somando a receita auferida com a venda de todos os seus livros durante toda a sua vida, superar aquilo que ganha num ano o dentista mais vagabundo de São Paulo. Escrevo-o aos risos. Vou repetir: um escritor brasileiro, ainda que supere Machado de Assis em genialidade, ainda que supere Carpeaux em erudição e Mário Ferreira dos Santos em tempo de estudo, provavelmente não ganhará mais dinheiro com livros, em toda a sua vida, do que ganha num único ano um barbeiro que trabalha de chinelos, que se formou num curso de seis meses e exerce despreocupadamente a sua ocupação. Essa é a realidade, e escreva quem quiser.
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Às vezes parece que entre o gênio inglês…
Às vezes parece que entre o gênio inglês e o gênio latino há uma fronteira intransponível, muito maior que entre este e o russo, ou entre este e o oriental. É difícil explicar. Mas, por mais que se admita a grandeza da literatura inglesa, há uma veia latina, um fulcro que os ingleses nunca tocam, e portanto as suas obras sempre parecem faltas de algo. A Inglaterra não pode produzir um Unamuno, nem é imaginável em sua literatura um Raskólnikov. E ao latino, não há imagem mais perfeita de obscuridade do que a de um metafísico inglês.
O fracasso da vida de Tolstói
Todas as contradições, a desumanização e o próprio fracasso da vida de Tolstói relatados por Paul Johnson são muito tristes. Porém, tomar-lhe o relato como um resumo da vida seria imprudente: a biografia carece do testemunho literário. E, sem dúvida, a imagem que fazemos de Tolstói se transforma quando confrontamos os dois. Fica, de um lado, a aparência exterior, o ato, toda sorte de fraquezas e defeitos humanos que tendem a vir à tona quando se exige do homem a ação. Tudo isso é de se lamentar. Porém, quando lemos algumas linhas de Tolstói, percebemos haver nele algo diferente. Não se trata da genialidade literária, mas da absoluta impossibilidade que uma compreensão tão profunda da natureza humana não tenha implicado a consciência das próprias contradições, da própria desumanização e do próprio fracasso. É impossível imaginar que o Tolstói de Paul Johnson não experimentasse uma atrocíssima guerra interior. E, notando-o, somente o diabo é incapaz de empatizar.
O jovem brasileiro que se incline à literatura…
O jovem brasileiro que se incline à literatura possui uma vantagem para escolher se segue ou não a sua disposição natural. Esta é a de se desenhar claríssimo o futuro que lhe aguardará caso opte por segui-la. A ilusão é-lhe impossível. Basta vasculhar alguns diários ou cartas de escritores do passado. Ou então refletir se há, vivo, algum exemplo de “sucesso”, de “reconhecimento” que lhe poderia servir de meta. Não há nenhum. O candidato a escritor, se refletir um pouco, concluirá que não inveja a situação de nenhum outro escritor de seu país. Daí que chegará facilmente à questão fundamental, que talvez fique encoberta para jovens de outras nacionalidades: é possível imaginar outra vida? seria tolerável privar-se de escrever e exercer outra ocupação? Pensando nisto, poderá escolher, pelos motivos certos, a vida que deseja para si.