Às vezes, nas biografias, não é dado o devido destaque, ou não prestamos suficiente atenção nas vezes em que o biografado é ajudado, estimulado ou impulsionado por alguém que a biografia acaba por ofuscar. Vem à mente aquele anônimo tio Cunha, cuja importância na formação do pequeno Fernando Pessoa não pode ser sequer estimada, mas certamente foi benéfica e fundamental. Pessoas assim, como anjos, costumam aparecer umas poucas vezes na vida; influem de forma determinante, mas com uma sutileza que costuma se perder no tempo, frequentemente não deixando registros senão aqueles que deveriam permanecer para sempre na consciência. Cabe ao beneficiado nunca esquecê-las: nem quando, porventura, se encontrar em altitudes superiores; nem quando descair e for assaltado pelo injustificado pensamento de que esta terra está privada do bem.
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O problema em se escrever uma “ode ao fútil”
O problema em se escrever uma “ode ao fútil”, como o fizeram alguns poetas, é que, a partir do momento em que o leitor se depara com um poema assim, prosseguir na leitura significa aceitar o papel de interessado nas futilidades do autor. A maioria, decerto, o aceita, e o aceita entusiasticamente, e o tal poema talvez encerre a genialidade de aproximar-se, pelas letras, de um programa de televisão. Mas ocorre o seguinte: ninguém se interessa por programas da década passada, porque todo fútil possui este atributo que o condena ao esquecimento — é, necessariamente, temporal.
A ironia é uma delícia
A ironia é uma delícia. Irresistível, às vezes. E para alguns temperamentos, essencial. Mas é difícil não enxergar para onde tende, ou melhor, é difícil não enxergar os efeitos de sua prática regular prolongada na personalidade do praticante. Para entendê-lo, basta investigar de onde brota sua motivação. Há ironias que, em suma, edificam; outras degeneram. E tal se percebe não pelas reações que suscitam, mas pelo sentimento que o ironista alimenta dentro de si. Sentar-se sempre à mesa, centrar a vida na crítica mordaz é algo que só se deveria fazer com um objetivo construtivo e purificador.
Talvez, somente a poesia seja comparável…
Talvez, somente a poesia seja comparável à historiografia no Brasil, ambas com uma longa tradição de autores de altíssimo nível, dos mais variados estilos e enfoques. E o curioso é notar que, apesar desta vasta e excelente bibliografia à disposição, o brasileiro comum desconhece por completo a história do Brasil. É uma dessas ironias paralisantes. O americano médio tem lá sua opinião sobre todos os grandes eventos da história americana: conhece-os, ao menos. E nos Estados Unidos, basta entrar em qualquer livraria, em qualquer das extremidades do enorme país, para constatar o seguinte: não há, em nenhuma delas, seção maior do que a de história americana. No Brasil, a despeito dos grandes autores, tal não se passa. E os grandes autores, é bom que se diga, são tão grandes quanto desconhecidos do público geral. Assim, ficamos nessa: a engrenagem da cultura já parece existente; falta, no entanto, que algo force o arranque do motor.