Não parece nem um pouco razoável que, morto o autor, sob a justificativa de lhe resguardar os “direitos” dos herdeiros, sua obra fique quase inacessível por setenta anos, até que, enfim, caia no chamado domínio público. Certamente, não parece ser do interesse do autor que sua produção seja tutelada pelos caprichos daqueles que só a enxergam como meio de ganhar alguns trocados, e que fazem quase sempre com que ela caia em esquecimento justamente quando poderia ganhar maior repercussão, isto é, nos anos imediatos à morte. Repetidamente, o que se vê são “herdeiros” optando pelo melhor negócio, quer dizer, dando exclusividade a uma editora meia-boca para imprimir as obras num papel vagabundo, com edição péssima e lucro maior. Porém, não é raro que a editora também dificulte a distribuição, o que resulta em menos vendas e lucro menor. Tudo isso é muito mesquinho, e chega a ser incompreensível como foi possível tornar-se normal, especialmente aos “herdeiros”, usar o autor em vez de homenageá-lo, prejudicá-lo em vez de promovê-lo…
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É mais ou menos inevitável que o poeta…
É mais ou menos inevitável que o poeta que se ponha a criticar outros poetas valorize nestes exatamente as qualidades que procura desenvolver em sua obra pessoal. Involuntariamente, o destaque vai para aquilo que o mais atrai. Por isso, não é raro a crítica feita por um poeta revelar mais sobre si mesmo que sobre o autor criticado. E isso é muito bom. Quase sempre, são os melhores trechos de sua crítica aqueles em que como esquece o papel que ora exerce e deixa fluir livre, para onde quiser a sua interpretação pessoal. Quando os comparamos com aqueles outros trechos em que estão apontados aspectos, ou mesmo autores com os quais o poeta-crítico menos se identifica, a crítica, ainda que boa, fica a parecer um tanto sem-sal.
A crítica literária sofre da impossibilidade…
A crítica literária sofre da impossibilidade de objetivar totalmente os critérios de julgamento das obras, ficando os pareceres, assim, sempre mais ou menos fundados em preferências pessoais. Até aí, nenhum problema. Este começa quando a crítica se vê obrigada a apresentar-se sempre como objetiva, sendo notório que frequentemente o não é. Assim que se dão muitas polêmicas desnecessárias, talvez evitáveis se fossem mais comuns na crítica os verbos “acho”, “prefiro”, “parece”. O melhor, sem dúvida, é deixar este terreno apenas para os vocacionados, e encontrar meios diversos para, sem jamais apresentar-se como crítico, despejar preferências e opiniões.
A história de Aladim é destas que…
A história de Aladim é destas que, imberbe ou de cabeça branca, coloca o leitor a sonhar. E é realmente impossível lê-la e não ficar imaginando tudo o que se poderia pedir ao célebre gênio, quão maravilhosamente simples se tornaria a resolução de todos os problemas. Também logo se começa a pensar que boa besta não foi o protagonista, pedindo tão pouco, valendo-se tão superficialmente do imenso poder que lhe caiu em mãos. Sem dúvida, a força desta história se encontra em sua encantadora sugestividade, à qual homem nenhum consegue ficar indiferente. Seja uma grande bobagem toda essa coisa de sultões, magos, joias e princesas, mas são raras as histórias que colocam tão intensamente a mente a sonhar.