Poucas coisas são tão deliciosas…

Poucas coisas são tão deliciosas quanto planejar e antever, neste ato, tudo ocorrendo conforme o previsto. E então permitir-se navegar nas plácidas águas do otimismo, alegrando-se antecipadamente porque o planejamento haverá de correr bem. Que satisfação! O melhor é poder fazê-lo sempre, e sempre usufruir desta sensação expansiva e revigorante que só a inocência é capaz de entregar.

A literatura não precisa de leitores

A literatura, ao contrário do que pode parecer, não precisa de leitores para que sobreviva. Em verdade, não precisa de nenhum leitor, nunca — basta-lhe um punhado de artistas verdadeiros. Enquanto houver alguém, como Pessoa, a enxergar num Antero um irmão de espírito, a literatura perdurará. E é indiferente que a humanidade desconheça tais homens, que a esmagadora maioria nunca lhes ouça uma palavra: basta que um deles nasça, e cumpra-lhe a missão de colocar mais um elo na corrente.

A inteligência que se manifesta pelo estilo

É curioso como as traduções, por mais que fiéis quanto ao sentido do texto, por mais que gramaticalmente corretas, quase sempre falham em transmitir o estilo, ou melhor, a inteligência que se manifesta pelo estilo de um autor. Há algo quase sempre intraduzível de um idioma para outro, que é a organização criativa das frases que explora não somente a sintaxe, mas a semântica particular do idioma em que se discursa. Assim que a tradução o mais das vezes soa estranha, quando o tradutor prudentemente opta por transmitir o sentido, em detrimento do estilo do autor traduzido. Para fazer o contrário, é preciso permitir-se uma liberdade que estará em apuros para livrar-se da falsificação.

 

Álcool e arte

Embora já tenha brincado, num poema dedicado a Augusto dos Anjos, que eu supostamente fazia versos ao lado de uma taça de vinho, tal possibilidade é-me absolutamente impensável, e não consigo sequer cogitar um possível estímulo proveniente do álcool que facilite o trabalho criativo, especialmente em se tratando de poesia. Para fazer versos, é preciso reunir não somente toda a lucidez disponível, mas muita energia, boa disposição e silêncio, para que seja possível concentrar inteiramente o espírito na criação. Mesmo na prosa, que por vezes parece um trabalho de força, o álcool não seria senão um empecilho após as primeiras linhas, quando é preciso sustentar a concentração e avançar como empurrando as pesadíssimas palavras para frente. Do álcool, somente se extrai uma certa euforia e uma ilusão de que a ideia sairá magnífica no papel — assim como ocorre por vezes sem ele, e então temos de confrontar a realidade… Parece-me justa a comparação com um atleta de alto nível, que embora possa gostar de beber, jamais o fará nos instantes que precedem um treino sério ou uma competição.