A trajetória intelectual de Hermann Hesse

A trajetória intelectual de Hermann Hesse é admirável. Os “escritos póstumos de Joseph Knecht”, mormente “As três vidas”, são como uma síntese de uma vida inteira dedicada ao estudo, de uma longa imersão nas mais altas filosofias do oriente e do ocidente; uma síntese das grandes religiões e das grandes compreensões da realidade, partindo dos elementos mais simples aos mais complexos, da moral prática às abstrações do pensamento. E ver tais linhas provenientes do autor de Demian… Não foram poucos os que tentaram harmonizar o oriente e o ocidente no último século; mas pouquíssimos o fizeram com a beleza alcançada por Hesse.

O jogo das contas de vidro, de Hermann Hesse

Este belíssimo romance é uma admirável tentativa de sintetizar quanto há de mais alto e mais nobre na existência humana. Se analisamo-lo com cautela, vemos que a virtuosidade, em suas múltiplas faces, foi cuidadosamente distribuída pelas personagens e pelo enredo do romance. Dificílima tarefa! e por isso digna do maior apreço. Estruturalmente, a obra é interessante por fornecer-nos lances assaz previsíveis e deixar algumas lacunas na história. Tal nos faz refletir sobre a necessidade da surpresa quando há um todo harmonioso a expressar uma mensagem profunda e potente. Numa narrativa inteiramente impregnada desta harmonia, quanto se ganha surpreendendo? Notamos, na obra, o honroso esforço por dar voz ao inefável, por expressar-se pela singeleza e complexidade do silêncio, da música, do céu estrelado, como se tais elementos não carecessem além da própria presença para dizer-nos o que têm a dizer. A vida de Joseph Knecht encerra-se numa cena de simbolismo inesquecível: cada detalhe contribui para a mensagem central da obra. A beleza radiante da paisagem, os contrastes entre juventude e velhice, instinto e racionalidade, saúde e doença, o ato simultaneamente humilde e corajoso do erudito que desafia e permite-se engolido pela natureza, tudo isso, tomado em conjunto, parece tangenciar a complexidade da vida. Por algum motivo, brota-nos a imagem de Hermann Hesse voando alto, muito alto, nos mesmos anos em que um exército de autores atiravam a literatura na depravação…

Não há como não se deixar tocar pela nobreza…

Não há como não se deixar tocar pela nobreza, pela beleza de uma educação conduzida por um homem probo e talentoso, posto que resultados maravilhosos se lhe podem derivar. Tal é, contudo, de tamanha raridade, que aqueles que se deparam com um exemplo real não podem senão perder-se em idealizações sobre como tudo seria melhor caso todos tivessem oportunidades idênticas à de alguns seletos iluminados. E então confrontá-lo com o mundo real… mas que fiquem para outro dia os lamentos: merecem o mais alto reconhecimento aqueles que honram essa nobre vocação.

Cinco séculos de genealogia

E vemos, com um misto de gosto e surpresa, Nabokov a descrever detalhadamente cinco séculos de sua genealogia. Cinco séculos! E, de outro lado, aqueles que não sabem sequer o nome de nenhum dos bisavós. É bonito pensar que haja, em ambos os casos, um motivo para tal; e se temos num deles um grande escritor extraindo sentido de sua família, preenchendo-se de um senso de pertencimento saudável e estimulante, noutro dá-se a justificativa prática para uma filosofia particular…