Novamente Antero…

É impressionante como fui capaz de enxergar Antero através de seus versos. Leio-lhe uma biografia, e uma infinidade de fatos não descritos assomam-se a mim como óbvios — fatos que acabo confirmando na pena de outros biógrafos. Assim, compreendo-o inteira e perfeitamente, desde os tormentos íntimos à conduta; e se um Eça diz-lhe a convivência “fugidia”, embora “consoladora”, já sei os motivos, já deduzo o mistério que esconde essa postura aparentemente contraditória. Sei como Antero se sentia, e sei como lhe era pesado um fardo do qual não podia falar. É comovente vê-lo descrito por Eça, ver como impôs uma vitória esmagadora sobre seus conflitos interiores através de sua personalidade. E, finalmente…

O templo da glória literária

Segundo Schopenhauer, saiu da pena de d’Alembert esta virtuosíssima reflexão sobre o “templo da glória literária”:

L’intérieur du temple n’est habité que par des morts qui n’y étaient pas de leur vivant, et par quelques vivants que l’on met à la porte, pour la plupart, dès qu’ils sont morts.

Que coisa! E pior é notar raríssimas as exceções a essa regra. A conclusão mais evidente é aquela de Cioran, Valéry, Volaire, de ser o sucesso uma verdadeira desgraça ao artista. Porém, quando indagamos o porquê de tal dedução, somos levados a admitir que nada há de mais benéfico, senão essencial ao artista que uma mistura entre fracasso e solidão. Que lhe seja o isolamento produtivo é facilmente compreensível; mas o fracasso? o passar a vida preterido, senão repudiado? E notar que é o que se passou na esmagadora maioria das vezes com aqueles que se eternizaram no templo de d’Alembert.

São as pedras que definem o valor

Quando notamos exemplos tão comuns como o de Augusto dos Anjos, isto é, exemplos de uma mente que brota luminosa e independente, parecendo ignorar, senão preterir aquilo que é tido como fundamental, e notamos reações que costumam acompanhar este fenômeno, inclinamo-nos a concluir que são as pedras que definem o valor de um artista. É curioso como parece sempre, sempre a individualidade exigir um destacamento; individualidade esta que pode ser também chamada de essência ou identidade. E mesmo os artistas que cedem a estas idealizações conjuntas, a esta conformidade geradora de aplausos, têm de encarar um momento, talvez o momento, em que são como forçados a separar-se de todos e seguir adiante solitariamente, a despeito do que os outros possam pensar ou dizer. Tais reflexões só nos levam a questionar se servem estas associações literárias de algo que não evidenciar-nos quais são as ovelhas e quais são os artistas de valor.

O artista individualiza-se na expressão

Se o artista se limita, como muitos têm-no dito, a dar novas formas a ideias antigas, é de se concluir que ele individualiza-se na expressão. Há um fundo de verdade na assertiva de muitos escritores que diz uma narrativa resumir-se no arco de ação, sendo todo o resto secundário. Porém, é de se notar que o enredo dá-nos uma visão o mais das vezes vaga do artista, que não pode ser resumido num diagrama. Para vê-lo, para conhecê-lo, para identificá-lo, é preciso que vejamos como ele se expressa, e não o que está sendo expresso. Tal percebemos mesmo num exemplo emblemático como Dostoiévski, cujas obras possuem arcos dramáticos tão bem definidos que Nabokov taxou-o de dramaturgo. Dostoiévski revela-se, antes, nos períodos longos, conturbados, intensos e tumultuosos. Não é preciso prosseguir.