Há algo realmente belo no processo de criação…

Há algo realmente belo no processo de criação poética e que somente o poeta pode experimentar. O poema, quando concebido, o mais das vezes parece excelente: dá-se a ideia, que se transfere timidamente ao papel. Aqui, nada há de concreto e bem definido, apenas uma vaga intenção, e uma imagem que parece reluzir. Então vem o esboço, que sai desajeitado, senão desastroso, resultando num como choque de realidade na cabeça do poeta. A ideia, antes brilhante, ora parece má, e sua realização aparenta inviável, não passível de produzir os efeitos que pareciam tão simples e certos. O poeta, pois, tem de decidir: abandona a empresa? prossegue no intento? Optando por esta, segue-se um longo e fatigante trabalho de melhorar o esboço repulsivo, de aproximá-lo o mais possível daquela imagem que lhe pareceu ótima. Então os versos vão sendo seguidamente repetidos em mente e, aos poucos, esta aponta-lhes as falhas, vai modificando-os, substituindo palavras, enquadrando-os num ritmo mais interessante e mais agradável. Finalmente, como quase por milagre, o esboço torna-se um poema, e já não guarda o grosso dos aspectos repugnantes de outrora. Por vezes, há uma aproximação satisfatória da ideia inicial; por outras, algo diferente é alcançado. Chega o momento de os versos, já gravados em mente, descansarem. E, durante um tempo indefinido, inesperadamente, a mente prossegue em seu trabalho, esmerando algumas arestas, apontando soluções novas e, algumas vezes, conferindo um brilho até então inexistente aos versos já talhados. Quando tal ocorre, o poeta, relembrando a impressão amarga suscitada pelo esboço, cotejando este com o resultado final, não pode senão alegrar-se e sorrir.

O meu melhor humor…

O meu melhor humor — posso chamá-lo talvez minha veia sarcástica — prova-se a mim o melhor justamente por se manifestar de praxe com intensidade máxima em momentos sérios. Sei bem o que sentia Cioran: é um impulso irresistível! É por isso que, relaxado, talvez não me sinta instigado a gracejar. Para fazer boas piadas, tenho de estar em atmosfera solene; então saem elas como por automatismo, senão necessidade. E assim percebo que, nestas Notas, que se fazem leves, tranquilas, quase sem esforço, é raríssimo encontrar mostras de minha fatal inclinação para a palhaçada. Já em minhas linhas “sérias”, onde me ponho num estado de concentração plena, onde arranco-me do íntimo o que me parece a verdade mais pura, onde — não há negar… — meto-me amiúde, exatamente como Cioran, a despejar pessimismo, desespero e desencanto no papel, então, precisamente nestes momentos, também como Cioran, tenho a sensação de ser quase um pecado o desperdiçá-los como pano de fundo para uma piada grosseira. Infelizmente, não posso mudar-me a natureza…

Finalmente…

É uma verdadeira alegria constatar que, após quase um ano de trabalho duro e repetidos lamentos, finalmente posso aqui registrar que terminei um novo voluminho de poemas. Em poesia, é inegável existir esse prêmio. Agrada o saber-se autor de versos acabados, sensação que, com a prosa, é assaz diferente… Agrada, sobretudo, porque a poesia surpreende, em razão da própria técnica poética, e surpreende mesmo que o leitor seja o autor dos versos que lê. Esse efeito surpresa, quando escancarado pela nova leitura, traz uma satisfação sincera ao evocar em mente o momento de brilho de sua criação. Assim é a poesia: muito trabalho duro, e uns poucos lampejos que parecem justificar tal trabalho; lampejos que, fulgindo em meio a um todo coeso, conferem imenso valor a uma criação enganosamente estéril.

A arte, em sua manifestação mais autêntica, é a expressão…

O artista que ambiciona o sucesso enquanto vivo merece-o, e merece-o por ser a arte escolha dificílima. Contudo, tal artista nunca, jamais poderá almejar um posto entre os maiores, posto que a arte suprema nada espera e nada tem de esperar. A arte, em sua manifestação mais autêntica, é a expressão que brota de uma necessidade e tem como finalidade a própria expressão. Pouco importam os meios pelos quais se expresse, as técnicas de que porventura se valha: são estes meros detalhes que, realçados em excesso, obscurecem esta verdade autoevidente: não se faz grande arte por capricho.