Os demônios efetivou-se em obra-prima…

Seria interessante analisar como Os demônios efetivou-se em obra-prima apesar de ter sido concebida por Dostoiévski com fins assumidamente panfletários. É uma verdadeira proeza que tal se tenha passado, posto que o destino mais provável de uma obra assim motivada é a lata de lixo. Impressiona não somente a capacidade de Dostoiévski em dar abrangência ao episódio, mas o senso de urgência e importância só possível em um autêntico visionário. A obra, pois, acabou fortalecida pelas mesmas qualidades que ordinariamente emporcalham. Mais que uma trama real, complexa, original e profunda, saiu ela como denúncia e profecia, sendo igualmente valiosa a filósofos, psicólogos e historiadores. Raríssimas as obras das quais se pode dizer parecido.

Parece certo que, um dia, o Brasil oficializará…

Parece certo que, um dia, o Brasil oficializará a língua brasileira, visto que o tempo inevitavelmente particulariza a língua falada em diferentes terras, dificultando cada vez mais uma unidade idiomática. Há, nisto, muitas razões plausíveis e muitos erros. O primeiro destes é a suposição de que uma língua deve ter uma “unidade”, isto é, deve ser falada da mesma maneira unanimemente. Chega a ser risível pensar que, oficializada a tal língua brasileira, não será ela suscetível às mesmíssimas variações regionais e aos mesmíssimos processos evolutivos que rigorosamente todos os idiomas falados em larga escala sofreram e sofrerão. É preciso ser muito ignorante para supor que canetadas pautarão a língua falada nas ruas, quando é esta que, em última instância, pauta as gramáticas. Medidas estúpidas como este último acordo ortográfico não fazem senão torná-lo ainda mais evidente. Por outro lado, é compreensível e até natural que um povo anseie por uma expressão autêntica. Mas é preciso muito cuidado para distinguir até que ponto esta autenticidade representa uma evolução necessária, em vez de operar um rompimento brusco com as raízes que a permitiram evoluir.

O artista que preocupar-se demasiado…

O artista que preocupar-se demasiado com as conjunturas sociopolíticas de seu tempo logo ver-se-á desperdiçando o intelecto com questões que não pode resolver, ou seja, gastará neurônios inutilmente e acabará frustrado. É claro que é algo pouco inteligente… Se há questões desta estirpe que poderão afetá-lo, o prudente é tão somente conhecê-las, precaver-se caso necessário e, se vierem efetivamente a bater-lhe na porta, adaptar-se como puder. Portanto agir, mas apenas se lhe não houver outra opção. E no mais, não preocupar-se com aquilo que não tem controle, direcionando-lhe o foco para o mais importante e que lhe permite campo de ação.

A impressão que se fica após a leitura…

A impressão que se fica após a leitura de vários romances náuticos é que o homem, para embarcar num veleiro, tinha de sofrer ao menos um distúrbio mental grave. É divertidíssimo constatar quão absurdas nos parecem, hoje, as navegações do passado, em que as embarcações eram como joguetes expostos à fúria marítima e os viajantes, acossados pelos terrores das procelas, punham-se de joelhos diante da sorte. Essa exposição voluntária ao desconhecido parece-nos irracional, embora expresse uma coragem que hoje carecemos. Mas o embate do homem com o irracional, o poderoso e incontrolável continua existindo; embora já não se tire lições como antes e nem se saia com a mesma dignidade.