Cioran, Antero, Kafka… todos dotados de uma mente noturna, isto é, uma mente que, contrapondo-se aos hábitos corporais diurnos, escolhe a noite para pôr-se em atividade intensa. Grande parte das noites, pois, uma verdadeira tortura, um conflito incessante que só termina quando a luz já invade a janela do quarto. O fatigado corpo pedindo descanso, e a mente tendo na quietude da madrugada o horário perfeito para trabalhar. Ideias a estourar como rojões, raciocínios que desenvolvem-se uns sobre os outros, cenas, julgamentos, aflições, planos, expectativas, tudo isso rebentando, sugando atenção quando a vontade é anulá-los todos. Então, já acostumado, o espírito passa a chamar de noites boas aquelas em que o dormir é como um semissono, — o máximo que consegue atingir, — um estado em que a falação mental confunde-se num meio-termo entre sonho e raciocínio, já automatizado por um encadeamento inconsciente e só interrompido por despertares espaçados, nos quais um lampejo consciente questiona o grau da própria lucidez. E desta rotina aparentemente terrível, muitos e muitos frutos, soluções que jamais se dariam num estado plenamente desperto, ideias que, se não oriundas do recanto mais fundo da mente, parecem colocadas pelas mãos de um espírito superior. Muito bem, muito bem: é possível aprender a gostar de noites assim — só não é possível, para uma mente como essa, o bom humor pelas manhãs.
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Crianças iludidas pelo fútil
Para não dizer inexistentes, é no mínimo raro encontrar nesta dita poesia lírico-amorosa versos em que uma experiência real é cantada, algo verdadeiramente alto e belo como se vê em Dante. Em contrapartida, mude-se as línguas e as épocas, encontra-se sempre os mesmíssimos elementos que enfastiam o leitor sedento por alguma elevação. Claro, claro: há exceções; mas a compaixão que o maior número destes poetas desperta nada tem que ver com os versos que fizeram. Lamentavelmente, parecem eles crianças iludidas pelo fútil, que viveram alimentando-se desta vontade nunca concretizada que a maturidade faria dispersar. A maturidade, isto é, a sabedoria ou a experiência. Ambas parecem ter-lhes faltado, do contrário teriam encontrado algo mais nobre para direcionar-lhes a atenção.
O fenômeno de acentuação secundária
É curioso notar que o fenômeno óbvio de acentuação secundária em palavras polissílabas não tenha entrado na cabeça de Castilho; mas impressiona ainda mais que, anos depois, o mesmo fenômeno tenha sido negado expressamente por poetas como Bilac e Guimarães Passos. A dizer a verdade, Castilho, um grande metrificador, não era perito em ritmo, tendo esta palavra aparecido uma única vez em todo o seu tratado de metrificação. E Bilac e Guimarães Passos, apesar da bela obra conjunta, limitaram-se a republicar a teoria de Castilho no Brasil. Cabe a Said Ali o mérito de ter sido o primeiro a refutar Castilho e dizer o óbvio: a pronúncia portuguesa natural exige um acento secundário em tais palavras, porque a língua repele três átonas em sequência desprovidas de apoio tônico. Em português, a acentuação real não segue um padrão binário, mas gradações, como argutamente notou Said Ali. O gramático se contenta identificando o acento dominante da palavra, mas o poeta não pode fazê-lo. O poeta tem de perscrutar, primeiro, as sutilezas do idioma e, segundo, o discurso falado. E precisa lembrar-se sempre que gramáticas são diretrizes, que periodicamente se atualizam e são de praxe desrespeitadas pela língua real.
Há muitas vantagens em se publicar voluminhos…
Há muitas vantagens em se publicar voluminhos com regularidade em vez de deixar a obra crescer indefinidamente. A primeira delas é a distribuição mais tolerável do trabalho de revisão. Outra delas e, talvez, a principal, é que não se sabe quando chegará a morte, e é bom evitar o risco de ter publicados trechos que jamais passariam pela mais falha e desatenta revisão, como se vê aos montes nos Diários de Kafka. Que ironia! Kafka, que adorava taxar de mau e queimar o que escrevia, teve publicada integralmente, com erros óbvios e muitas linhas ociosas, uma obra que provavelmente atiraria à fogueira. Sem dúvida, é algo que poderia ter sido evitado.