Creio ter sido Carpeaux a notar que o grande gênio o mais das vezes vive estorvado pelas circunstâncias. E mesmo que não queira, mesmo que resista, uma força parece colocá-lo em movimento, proibir-lhe a inércia improdutiva. Assim temos o perfil mais comum: um indivíduo nem pobre, nem rico; nem totalmente desprovido de meios, nem agraciado com demasiadas facilidades. Põe-se em ação; fá-lo porque precisa, porque sente pulsando um desejo e uma necessidade de superar-se, de elevar-se, que não é senão uma recusa terminante das condições presentes. Destarte, adquire uma motivação inquebrantável, disposta às últimas consequências para alcançar aquilo que se propôs. Adapta-se como pode aos estorvos momentâneos e segue adiante, sempre adiante. Então, todo esse conjunto complexo de circunstâncias de que fala Pessoa, especialmente as do ambiente, torna-lhe o espírito excepcionalmente vigoroso, para que seja por fim beneficiado pelos necessários — como também nota Pessoa — “episódios mínimos de sorte”. É um fenômeno interessantíssimo, e que dá o que pensar…
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Assim como irrita a ironia machadiana mal imitada…
Assim como irrita a ironia machadiana mal imitada, — e tão imitada!, — o mesmo ocorre em poesia com essa leveza simulada, essa simplicidade querendo-se profunda, essa delicadeza que, quando não expressão autêntica de um temperamento, enfastia. Em resumo: Drummond e Bandeira. Talvez a maior maldição do sucesso seja-lhe os rebentos, isto é, os imitadores. Como é constrangedora a técnica quando exposta sem o verniz original! E ver todas essas cópias baratas pululando, tornando ridícula a própria criatividade a engendrou… Diretamente, é verdade, os originais não se maculam; contudo, é difícil que algum artista se regozije com falsificações. Restam os antídotos, e nenhum parece mais potente que inserir na própria arte excentricidades absurdas, repugnantes, as quais imitador nenhum terá coragem de se apropriar.
O casamento é a morte da poesia lírico-amorosa
Versos de Byron:
There’s doubtless something in domestic doings
Which forms, in fact, true Love’s antithesis;
Romances paint at full length people’s wooings,
But only give a bust of marriages;
For no one cares for matrimonial cooings,
There’s nothing wrong in a connubial kiss:
Think you, if Laura had been Petrarch’s wife,
He would have written sonnets all his life?
Há verdades demasiado desagradáveis e que merecidamente acabam evitadas. Não há negar: o casamento é a morte da poesia lírico-amorosa. Ou, antes, acaba esta no instante em que o desejo é consumado. Para existir, é preciso que o poeta lamente não possuir aquilo que cobice, isto é, é preciso que algo entrave a realização de sua fantasia. Os versos brotarão somente enquanto o objeto idealizado estiver indisponível, e por isso mesmo permitir-se pintado com feitio extraordinário, algo que jamais ocorrerá caso se mostre uma entidade real. E aqui vamos nós: o amor de Petrarca pariu versos porquanto não correspondido, — conclusão óbvia que dispensa sustentação biográfica, — como ocorreu e ocorre com todos os seus pares. Digam quanto quiserem, mas esta é a verdade: o poeta capaz de realizar a própria vontade dificilmente fará versos de “amor”.
Os demônios efetivou-se em obra-prima…
Seria interessante analisar como Os demônios efetivou-se em obra-prima apesar de ter sido concebida por Dostoiévski com fins assumidamente panfletários. É uma verdadeira proeza que tal se tenha passado, posto que o destino mais provável de uma obra assim motivada é a lata de lixo. Impressiona não somente a capacidade de Dostoiévski em dar abrangência ao episódio, mas o senso de urgência e importância só possível em um autêntico visionário. A obra, pois, acabou fortalecida pelas mesmas qualidades que ordinariamente emporcalham. Mais que uma trama real, complexa, original e profunda, saiu ela como denúncia e profecia, sendo igualmente valiosa a filósofos, psicólogos e historiadores. Raríssimas as obras das quais se pode dizer parecido.