Parece certo que, um dia, o Brasil oficializará a língua brasileira, visto que o tempo inevitavelmente particulariza a língua falada em diferentes terras, dificultando cada vez mais uma unidade idiomática. Há, nisto, muitas razões plausíveis e muitos erros. O primeiro destes é a suposição de que uma língua deve ter uma “unidade”, isto é, deve ser falada da mesma maneira unanimemente. Chega a ser risível pensar que, oficializada a tal língua brasileira, não será ela suscetível às mesmíssimas variações regionais e aos mesmíssimos processos evolutivos que rigorosamente todos os idiomas falados em larga escala sofreram e sofrerão. É preciso ser muito ignorante para supor que canetadas pautarão a língua falada nas ruas, quando é esta que, em última instância, pauta as gramáticas. Medidas estúpidas como este último acordo ortográfico não fazem senão torná-lo ainda mais evidente. Por outro lado, é compreensível e até natural que um povo anseie por uma expressão autêntica. Mas é preciso muito cuidado para distinguir até que ponto esta autenticidade representa uma evolução necessária, em vez de operar um rompimento brusco com as raízes que a permitiram evoluir.
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O artista que preocupar-se demasiado…
O artista que preocupar-se demasiado com as conjunturas sociopolíticas de seu tempo logo ver-se-á desperdiçando o intelecto com questões que não pode resolver, ou seja, gastará neurônios inutilmente e acabará frustrado. É claro que é algo pouco inteligente… Se há questões desta estirpe que poderão afetá-lo, o prudente é tão somente conhecê-las, precaver-se caso necessário e, se vierem efetivamente a bater-lhe na porta, adaptar-se como puder. Portanto agir, mas apenas se lhe não houver outra opção. E no mais, não preocupar-se com aquilo que não tem controle, direcionando-lhe o foco para o mais importante e que lhe permite campo de ação.
A impressão que se fica após a leitura…
A impressão que se fica após a leitura de vários romances náuticos é que o homem, para embarcar num veleiro, tinha de sofrer ao menos um distúrbio mental grave. É divertidíssimo constatar quão absurdas nos parecem, hoje, as navegações do passado, em que as embarcações eram como joguetes expostos à fúria marítima e os viajantes, acossados pelos terrores das procelas, punham-se de joelhos diante da sorte. Essa exposição voluntária ao desconhecido parece-nos irracional, embora expresse uma coragem que hoje carecemos. Mas o embate do homem com o irracional, o poderoso e incontrolável continua existindo; embora já não se tire lições como antes e nem se saia com a mesma dignidade.
Mentes noturnas
Cioran, Antero, Kafka… todos dotados de uma mente noturna, isto é, uma mente que, contrapondo-se aos hábitos corporais diurnos, escolhe a noite para pôr-se em atividade intensa. Grande parte das noites, pois, uma verdadeira tortura, um conflito incessante que só termina quando a luz já invade a janela do quarto. O fatigado corpo pedindo descanso, e a mente tendo na quietude da madrugada o horário perfeito para trabalhar. Ideias a estourar como rojões, raciocínios que desenvolvem-se uns sobre os outros, cenas, julgamentos, aflições, planos, expectativas, tudo isso rebentando, sugando atenção quando a vontade é anulá-los todos. Então, já acostumado, o espírito passa a chamar de noites boas aquelas em que o dormir é como um semissono, — o máximo que consegue atingir, — um estado em que a falação mental confunde-se num meio-termo entre sonho e raciocínio, já automatizado por um encadeamento inconsciente e só interrompido por despertares espaçados, nos quais um lampejo consciente questiona o grau da própria lucidez. E desta rotina aparentemente terrível, muitos e muitos frutos, soluções que jamais se dariam num estado plenamente desperto, ideias que, se não oriundas do recanto mais fundo da mente, parecem colocadas pelas mãos de um espírito superior. Muito bem, muito bem: é possível aprender a gostar de noites assim — só não é possível, para uma mente como essa, o bom humor pelas manhãs.