Uma sensação inexplicável de dever persegue-me, já há muito tempo, e exige-me a retratação do drama de D. Pedro II. Em mente, já o realizei em versos, peças, roteiros de cinema… Mas, em verdade, realizei-o por me não poder livrar desta obsessão. Por quê? É engraçado que, de praxe, sempre que decido finalmente executar a tarefa, dezenas de motivos fazem-me abandoná-la. E a imagem deste homem continua vindo-me em mente ao escutar o Réquiem, de Mozart. Sêneca, Sócrates e outros muitos cuja injustiça do fim que tiveram salta aos olhos me não inspiram sensação semelhante. É D. Pedro II, somente ele, e por algum motivo tem de ser ele. Não sei que dizer…
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É curioso notar que muitos grandes artistas…
É curioso notar que muitos grandes artistas, especialmente nos séculos XIX e XX, travaram relações pessoais entre si. Curioso porque, algo que deveria configurar a normalidade, parece a exceção. Séculos anteriores, em que as distâncias pareciam maiores, viam-se mais ou menos dependentes de um capricho do destino em concentrar os espíritos superiores em determinadas localidades, como maravilhosamente ocorreu algumas vezes na história. Mas, ainda assim, algo a mais é preciso para que uma amizade seja estabelecida. E tanto os caprichos, quanto este algo a mais parecem ter abundado nos séculos XIX e XX, em que foi enorme a quantidade de grandes nomes que se conheciam, que eram verdadeiramente amigos. Não posso notá-lo, sem sentir um sincero contentamento por todos eles.
Um exercício contínuo de paciência
A poesia, essa arte terrivelmente difícil, é um exercício contínuo de paciência. Não adianta: a pressa, em poesia, é sempre o erro. É um verdadeiro transtorno saber que, por um lado, é preciso se aproveitar das manifestações espontâneas, que brotam como rajadas e conferem grande potência aos versos; mas, por outro, é preciso deixar que os versos esfriem, solidifiquem, e então esmerá-los calmamente, ajustando o ritmo, trocando palavras, apurando a expressão. Dói sobremaneira a punhalada que é notar uma mácula originária da afobação. Todo um exaustivo trabalho, pois, conspurcado quando já não é possível repará-lo. Dele, ao artista, ficará somente a falha, somente a frustração. Por isso o labor poético é um exercício de autocontrole, de paciência, em que o poeta deve atuar também como estrategista, liberando e contendo-lhe os impulsos, suspeitando de si mesmo ainda quando concluirá que não havia de fazê-lo. E, ainda assim, não será suficiente…
Todo artista possui inclinações e deficiências
Todo artista possui inclinações e deficiências. Há temas que, por uma disposição inata, saem-lhe com naturalidade e brilho; já outros, apresentam-lhe dificuldades. Por isso, em primeiro lugar, é importante que o artista seja capaz de identificá-los e classificá-los. Em seguida, é necessário empenho para desenvolver-lhe justamente as debilidades, e isso se dá exercitando a representação daquilo que lhe é oposto, explorando formas, arriscando. Em arte, é certo, há escolhas; mas também há fraquezas, e estas, se não assumidas, a seu modo conseguirão sempre se entranhar como defeitos evidentes. Completo será, assim, o artista que através do esforço converter em força aquilo que lhe não é natural.