Estou nos versos derradeiros de mais um voluminho de poemas. Nestes nove ou dez meses de trabalho; observo com prazer que me não sentei à mesa senão com motivação semelhante à de um Vigny, de um Antero, de um Leopardi. E disto resultou que os versos, todos eles, saíram-me carregados, desprovidos totalmente daquela “graça” de que falava Goethe. Ou, ao menos, é assim que me parece. Creio improvável, senão impossível, que algum dia me submeta ao trabalho extremamente fatigante de caçar palavras para produzir essa “graça” que tanto deleita. Ainda que me caia na conta bancária uma bênção, ainda que eu esteja no melhor de meus humores, opera algo como que automatizado pelo hábito: psicologicamente, o sentar-me para compor versos cumpre uma sequência quase religiosa que preenche-me a mente de uma seriedade que repugna o fútil, o leve, o “gracioso”. Se é para fazer versos, que saiam como o espelho do estado de alma de alguém que encara-os como a última oportunidade de expressar-lhe o que pulsa mais forte. Que saiam perturbados, complexos, desagradáveis! E que jamais deixem parecer que aquele que os compôs estava a se divertir…
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Para o artista iniciante, intimida o constatar-se…
Para o artista iniciante, intimida o constatar-se precedido de dezenas de séculos e um número incalculável de outros artistas que efetivaram o que ele tão somente pretende fazer. Se adicionamos os críticos e teóricos da arte, teremos então uma infinidade de juízos, escolas, definições daquilo que é ou não é arte, é ou não é bom, deve-se ou não se deve fazer. Nisto, aquele que ainda luta para encontrar a expressão daquilo que sente ver-se-á bombardeado e dificilmente arriscará o primeiro passo, sendo mais cômodo calar-lhe a voz interior. A verdade, porém, é que o artista tem de assumir-se, e será tanto melhor quanto antes o fizer. Todo esse imenso passado, que encanta e intimida, deve ser aproveitado na medida em que lhe seja útil, e jamais deve configurar um obstáculo para a expressão daquilo que lhe pareça justo. É preciso coragem! E, ademais, personalidade para executar exatamente aquilo que quiser.
O difícil, em arte, é aproveitar inteligentemente…
O difícil, em arte, é aproveitar inteligentemente as manifestações espontâneas que surgem durante o processo, inserindo-as na estrutura predefinida sem prejudicar o conjunto. Com frequência, os pontos mais altos de uma obra são oriundos de lampejos inesperados que o autor soube aproveitar. O todo, é certo, carece de ordem; e ordem não se faz de uma centelha que brota subitamente no espírito. Mas o artista, se surpreendido da ideia adventícia, fará muito bem transferindo-lhe este efeito surpresa para a obra. A arte ganhará.
Uma sensação inexplicável de dever persegue-me…
Uma sensação inexplicável de dever persegue-me, já há muito tempo, e exige-me a retratação do drama de D. Pedro II. Em mente, já o realizei em versos, peças, roteiros de cinema… Mas, em verdade, realizei-o por me não poder livrar desta obsessão. Por quê? É engraçado que, de praxe, sempre que decido finalmente executar a tarefa, dezenas de motivos fazem-me abandoná-la. E a imagem deste homem continua vindo-me em mente ao escutar o Réquiem, de Mozart. Sêneca, Sócrates e outros muitos cuja injustiça do fim que tiveram salta aos olhos me não inspiram sensação semelhante. É D. Pedro II, somente ele, e por algum motivo tem de ser ele. Não sei que dizer…