Assim como irrita a ironia machadiana mal imitada, — e tão imitada!, — o mesmo ocorre em poesia com essa leveza simulada, essa simplicidade querendo-se profunda, essa delicadeza que, quando não expressão autêntica de um temperamento, enfastia. Em resumo: Drummond e Bandeira. Talvez a maior maldição do sucesso seja-lhe os rebentos, isto é, os imitadores. Como é constrangedora a técnica quando exposta sem o verniz original! E ver todas essas cópias baratas pululando, tornando ridícula a própria criatividade a engendrou… Diretamente, é verdade, os originais não se maculam; contudo, é difícil que algum artista se regozije com falsificações. Restam os antídotos, e nenhum parece mais potente que inserir na própria arte excentricidades absurdas, repugnantes, as quais imitador nenhum terá coragem de se apropriar.
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O casamento é a morte da poesia lírico-amorosa
Versos de Byron:
There’s doubtless something in domestic doings
Which forms, in fact, true Love’s antithesis;
Romances paint at full length people’s wooings,
But only give a bust of marriages;
For no one cares for matrimonial cooings,
There’s nothing wrong in a connubial kiss:
Think you, if Laura had been Petrarch’s wife,
He would have written sonnets all his life?
Há verdades demasiado desagradáveis e que merecidamente acabam evitadas. Não há negar: o casamento é a morte da poesia lírico-amorosa. Ou, antes, acaba esta no instante em que o desejo é consumado. Para existir, é preciso que o poeta lamente não possuir aquilo que cobice, isto é, é preciso que algo entrave a realização de sua fantasia. Os versos brotarão somente enquanto o objeto idealizado estiver indisponível, e por isso mesmo permitir-se pintado com feitio extraordinário, algo que jamais ocorrerá caso se mostre uma entidade real. E aqui vamos nós: o amor de Petrarca pariu versos porquanto não correspondido, — conclusão óbvia que dispensa sustentação biográfica, — como ocorreu e ocorre com todos os seus pares. Digam quanto quiserem, mas esta é a verdade: o poeta capaz de realizar a própria vontade dificilmente fará versos de “amor”.
Os demônios efetivou-se em obra-prima…
Seria interessante analisar como Os demônios efetivou-se em obra-prima apesar de ter sido concebida por Dostoiévski com fins assumidamente panfletários. É uma verdadeira proeza que tal se tenha passado, posto que o destino mais provável de uma obra assim motivada é a lata de lixo. Impressiona não somente a capacidade de Dostoiévski em dar abrangência ao episódio, mas o senso de urgência e importância só possível em um autêntico visionário. A obra, pois, acabou fortalecida pelas mesmas qualidades que ordinariamente emporcalham. Mais que uma trama real, complexa, original e profunda, saiu ela como denúncia e profecia, sendo igualmente valiosa a filósofos, psicólogos e historiadores. Raríssimas as obras das quais se pode dizer parecido.
Parece certo que, um dia, o Brasil oficializará…
Parece certo que, um dia, o Brasil oficializará a língua brasileira, visto que o tempo inevitavelmente particulariza a língua falada em diferentes terras, dificultando cada vez mais uma unidade idiomática. Há, nisto, muitas razões plausíveis e muitos erros. O primeiro destes é a suposição de que uma língua deve ter uma “unidade”, isto é, deve ser falada da mesma maneira unanimemente. Chega a ser risível pensar que, oficializada a tal língua brasileira, não será ela suscetível às mesmíssimas variações regionais e aos mesmíssimos processos evolutivos que rigorosamente todos os idiomas falados em larga escala sofreram e sofrerão. É preciso ser muito ignorante para supor que canetadas pautarão a língua falada nas ruas, quando é esta que, em última instância, pauta as gramáticas. Medidas estúpidas como este último acordo ortográfico não fazem senão torná-lo ainda mais evidente. Por outro lado, é compreensível e até natural que um povo anseie por uma expressão autêntica. Mas é preciso muito cuidado para distinguir até que ponto esta autenticidade representa uma evolução necessária, em vez de operar um rompimento brusco com as raízes que a permitiram evoluir.