Compromisso gravado na pedra

A vantagem destas notas é que através delas posso metodicamente captar e registrar impressões efêmeras que experimento enquanto leio, durmo ou componho, e que provavelmente seriam desperdiçadas. Por outro lado, já divirto-me porque sei, enquanto as lapido, que amiúde estou a precipitar-me. Não interessa. Leio uma passagem, tenho uma ideia: essa ideia irá converter-se em nota; é este um compromisso já gravado numa pedra imaginária. Analisando friamente, creio que sejam estas linhas em prosa a concretização de um método rigoroso de aproveitamento mental.

Ah, se eu quisesse…

Ah, se eu quisesse fazer parte de um clube, de uma “escola”, de uma congregação! Após tomar conhecimento da existência de Antero, — quem eu poderia fantasiar, inclusive, como existência passada, visto o quanto tenho-me catequizado nestas filosofias, — eu me poderia facilmente incumbir de “continuar o que ele não terminou”, “resgatando” os seus “valores”, buscando-lhe os discípulos coevos a mim, etc., etc. Por isso, talvez, eu jamais pudesse ser Antero — alguém que martirizou-se cedendo às recaídas desse sentimento que, para uma mente incomum como a sua, deve ser exterminado em prol da paz.

Antero de Quental e Cesare Pavese

No diário de Cesare Pavese, o suicídio pode ser facilmente entrevisto posto que encontramos, primeiro, a ideia suicida que lhe afigura repetidamente como solução, e, segundo, oscilações temperamentais que lhe turvam a razão. Em Antero de Quental, o quadro é todo outro. Antero é, entre outras coisas, um estoico — e isso implica simultaneamente as capacidades de aceitar a realidade e de controlar a si mesmo. Em Antero, a despeito do conflito psicológico atrocíssimo, encontramos a razão tomando as rédeas do instinto, e disso decorre que o espírito, acostumado a oscilações agudas, também vê-se acostumado a convertê-las em impulsos profícuos através da meditação. Como, aos quarenta e nove anos, pôde Antero suicidar-se? Por um lado, parece-me óbvio estarmos todos sujeitos às suscetibilidades da raça; por outro, parece-me errôneo querer atribuir causas comuns a um homem incomum.

O velho debate

Diz Castilho:

Os versos de Filinto desagradam e martyrisam a qualquer ouvido, mesmo sem ser dos melindrosos; os de Camões commummente satisfazem; os de Bocage encantam; a estes, se alguma coisa se houvesse de reprehender seria a sua mesma perfeição excessivamente constante.

É verdade, é verdade: tecnicamente, Bocage não é menos que um mestre. Mas isso não empata a gargalhada diante desta conclusão que mais parece uma carta de amor. “Perfeição excessivamente constante”… Cabe-nos perguntar mais uma vez se o valor de uma composição poética resume-se à técnica ou se, porventura, configura-se a poesia como veículo expressivo de uma alma. Caso optemos por esta última hipótese, é forçoso concluir que a estirpe da alma que compõe versos, necessariamente, influencia o valor da composição. E que mais? Que uma alma nobre emprega-se em questões dignas de sua nobreza; expressa-as porque, para si, possuem elas um peso real e decisivo. Como chamar perfeita uma poesia corroída pelas paixões e preocupações mundanas? uma poesia incapaz de elevar-se a planos mais virtuosos? “Comumente satisfazem” os versos de Camões, enquanto os de Bocage “encantam”. Que conclusão!