O urubu-de-cabeça-preta

Vou eu, concentrado, batendo umas linhas inúteis, quando sou bruscamente interrompido por um urubu-de-cabeça-preta imenso, que quase me invade a cozinha e, em seguida, pousa em meu quintal. Fico a admirá-lo, imponente, pensando que jamais havia visto, de perto, um destes tão grande. Após alguns minutos, retorno à minha mesa e, antes que voltasse a escrever, pousa o urubu num poste, diante de minha janela. Penso sorrindo no verso de Augusto: “Ah! Um urubu pousou na minha sorte!”. Uma semana depois, pela manhã, vou eu compondo alguns versos amargos, quando novamente sou interrompido: um novo urubu, de mesma espécie, pousa-me no quintal reiterando o fato até então inédito. Vou observá-lo: noto que é um pouco menor que o primeiro, embora possa facilmente engolir um pombo numa bocada. Desta vez, detenho-me um pouco mais analisando-o. Parece ele não me notar enquanto reparo que, a despeito da crença popular, nada nele parece-me aventar mau agouro. Vou examinando, mais uma vez, o caráter majestoso desta ave, quando ela enfim alça voo. Num minuto, já está planando em altitude inalcançável para pássaros comuns, voando a seu modo todo particular, de asas abertas e estáticas o mais do tempo e subindo impulsionada por correntes, em técnica que outros pássaros nem sonham em dominar. Bonito! Perco-o de vista, e retorno inspirado à minha composição.

Há algo de verdadeiramente genial em Gilberto Freyre

Há algo de verdadeiramente genial na maneira como Gilberto Freyre constrói suas obras. A princípio, impressiona o caráter inclassificável de todas elas, isto é, o caráter de mistura, de obras devotadas a muitas, e não somente a uma ciência. Pelos prefácios, já se nota um amontoado impressionante de referências contrastantes, que instiga a curiosidade de como elas se irão harmonizar nas páginas seguintes. Então começa Gilberto Freyre sua prosa, intercalando antropologia e sociologia, sínteses e relatos, passando de um inventário de costumes a eventos históricos, penetrando no recanto mais íntimo de suas personagens, e todo esse amontoado vai lentamente formando um panorama complexo e vividamente colorido, que dificilmente uma obra puramente sociológica, antropológica ou historiográfica seria capaz de igualar. É como se ele, metódico, trocasse a tonalidade da tinta após pintar vários parágrafos com uma só cor. Depois de muitas páginas, quando já é possível observar o conjunto, sentimo-nos diante de uma obra com precisão historiográfica, mas pintada com sutileza literária na construção das personagens, na minuciosidade de detalhes, na representação dos ambientes socioculturais que serviram de pano de fundo para o período histórico abordado. É claro que suas obras, construídas dessa maneira, não podem agradar os tarados pela objetividade dos fatos — mas estes, porém, conhecendo-os, por isso mesmo não serão jamais capazes de os interpretar.

Há algo brilhante e curiosíssimo no Simbolismo

Por muito que se diga contra a obscuridade do Simbolismo ou, mais especificamente, dos poetas simbolistas, a verdade é que há algo brilhante e curiosíssimo nesta técnica expressiva que parece ocultar-se quando, em verdade, abre-se a possibilidades insondáveis. Em poesia, as palavras adquirem um peso incomum quando evocadas. Um verso desprovido de nexo sintático mas abundante em vocábulos sugestivos terá, sim, um forte efeito na cabeça de quem os lê. Se constrói-se “Dia chuvoso; dor; fadiga e desalento”, embora não conectadas logicamente por um argumento, a mente, ao ler tais palavras, de pronto as relaciona e forma uma imagem possuidora do elo lógico que lhes parece faltar. Assim, o poeta consegue fazer com que elas se manifestem em nuances individualizadas para cada leitor. Se, por vezes, a obscuridade pode ser enfadonha, por outras pode gerar efeitos interessantíssimos e quase ilimitados.

A rima é indispensável?

Embora eu, particularmente, muito aprecie o verso rimado, jamais endossaria Bilac e Guimarães Passos, que sustentaram “que em composição alguma de versos se deve prescindir da rima. Ela é indispensável”. Isso por vários motivos. Mas um deles merece menção especial. Não sei como compunham os poetas supracitados, porém parece-me necessário, saltando todo o processo de ideação do poema, que dele seja feito um rascunho. Se quero fazer rimas, pois, esboço primeiro o poema em versos brancos, para em seguida concentrar-me no ritmo, nas rimas e na seleção minuciosa das palavras. Percebo claramente que, preocupasse-me com rimas neste momento do esboço, não faria senão me estorvar o impulso criativo, interrompendo-me o fluxo das ideias para abrir um dicionário, algo absolutamente contraprodutivo. Portanto, tenho de concluir que este impulso criativo, em sua forma espontânea, pede a manifestação em verso branco — para não dizer verso livre. Pois bem: sei que nem todo grande efeito artístico é espontâneo, muito pelo contrário, como quase todo brilho de uma obra é proveniente de detalhes cuidadosamente pensados. A rima, pois, embora seja uma artificialidade, fica justificada. Mas a prática mostra, repetidas vezes, que rimar os versos é adulterá-los, e ainda que se possa ganhar em beleza com fazê-lo, vai-se aquela naturalidade inicial. Finalmente, chego onde quero. Haverá versos em que o poeta se porá num nível de estímulo tão forte que se sentirá a derramar emocionadamente a alma sobre o papel; versos que sairão como uma avalanche, que lhe expressarão o mais íntimo e brotarão com ímpeto e nitidez diferente daquilo que cria de ordinário. Não estou certo sobre o quanto se ganha rimando tais versos, quer dizer, parece-me que o poeta que os deforme para enquadrá-los em formalidades talvez cometa um crime contra si mesmo e insulte o singularíssimo momento em que os concebeu.