O Goethe de Eckermann

Vou deixando que fale o Goethe de Eckermann enquanto a mente é-me tomada por um turbilhão de comentários de Nietzsche, Jung e Cioran. E oscilo enquanto Goethe discorre sobre a arte e mil outros assuntos, ora apreciando-lhe as palavras, ora experimentando um completo estranhamento. Um espírito complexo e admirável, sem dúvida. Mas um espírito de quem julgo-me afastado, por inclinações e pela própria concepção da poesia, do poeta e da arte. A grandeza de Goethe, como artista e como homem, é inquestionável. Porém, seria possível ajuntar aqui um caminhão de ressalvas, que são felizmente escusadas por já estarem presentes na obra de Jung.

 

Conversações com Goethe, de Eckermann

Essa modéstia literária, forçada, cheia de pompa, tão ao gosto dos caçadores de elogios, nada tem de modéstia e mais parece vaidade. A virtude, se autêntica, é espontânea. A humildade simulada agrada tanto quanto uma nota falsa. Dito isso, é notável a simpatia que a verdadeira modéstia pode inspirar. É o que ocorre nestas admiráveis Conversações com Goethe, de Eckermann. Desde o princípio, o autor se nos apresenta com uma simplicidade absolutamente despretensiosa. Narra-lhe, sucintamente e sem dramatizar, as próprias origens, e conduz a obra com uma sinceridade digna do maior apreço. É de se lamentar que, ainda assim, tenha sido alvejado por ironias. Mas é inevitável que a verdadeira virtude seja invejada por aqueles que a não possuem. Eckermann é humilde, simplesmente humilde, e suas linhas agradam, sobretudo, pela naturalidade com que apresentam temas elevados. Pela forma e pelo conteúdo, é uma obra merecedora dos mais sinceros elogios.

O artista bon-vivant

Diz Burckhardt, em minha tradução inglesa:

Indeed, without this degree of force of character, the man of the most brilliant “talent” is either a fool or a knave. All great masters have, first and foremost, learned, and never ceased to learn, and to learn requires very great resolution when a man has once reached heights of greatness and can create easily and brilliantly. Further, every later stage is achieved only by a terrible struggle with the fresh tasks they set themselves.

“Force of character”, “never ceased to learn”, “terrible struggle”… aí está uma visão sensata do estado de espírito que produz grandes obras. É realmente uma piada essa visão romantizada do artista bon-vivant, tão disseminada nestes dias. Segundo ela, o exercício da arte é um prazer, um divertimento para os momentos de ócio. Um artista desta estirpe é, se muito, medíocre. Diante da postura de um artista sério, mesmo a tão falada “busca pela beleza” parece de uma futilidade afrontosa. Toda essa idealização do artista e da arte não parece definir muito bem a motivação real daquele que dedica um esforço descomunal, que molda a existência inteira em torno da própria ocupação, nunca relaxando, nunca satisfeito, na contramão daquilo que lhe é conveniente. Burckhardt, como poucos, apresenta-nos uma visão prudente daquilo que representa a verdadeira grandeza.

Carpeaux e Burckhardt

Intercalo Carpeaux e Burckhardt e é um verdadeiro prazer silenciar para que essas inteligências se pronunciem. Carpeaux, é impressionante, parece sempre disposto a apresentar-nos um novo autor, a conduzir-nos fisicamente pelo tempo e pelo espaço, brindando-nos com sua cultura inesgotável, pintando cidades, insuflando-nos de atmosferas longínquas, tudo isso com um estilo que parece mesclar o talento de um artista e a experiência de cem vidas. Já Burckhardt parece, do alto de uma torre, protegido das agitações de seu tempo e de todos os tempos, observá-las todas, analisá-las com a imparcialidade de um cientista e as inclinações de um diletante. Suas profecias são impressionantes. Se involuntárias, como sugere o próprio Carpeaux, evidenciam uma precisa e singular compreensão dos processos evolutivos da cultura e do tempo em que estava inserido. É realmente um prazer!