Tudo indica que completarei um ano inteiro…

Tudo indica que completarei um ano inteiro de dedicação exclusiva a quinze míseros poemas ou, mais precisamente, a uns mil e setecentos versos. Ria, Hugo, ria! E, no fim do processo, não haverá publicação, pois é preciso que os versos descansem — ainda que pareça ser isso o que têm eles feito nos últimos meses. Não fossem estas notas um eficacíssimo meio de dar vazão a ideias que surgem e se vão amontoando, já me veria diante de uma montanha inexpugnável de anotações. Tenho, por baixo, uns quarenta contos perfeitamente idealizados que não me exigem mais que um dia de trabalho para realizarem-se no papel. Além disso, já não sei quantos enredos para romances, peças ou o que for. Até para poemas, há excessos que não puderam ser aproveitados neste volume. E fico aqui a imaginar como, no passado, artistas que não dispunham de secretários organizavam-se após dez, vinte anos de trabalho criativo. Sem um computador, parece-me que eu seria forçado a desistir…

O grande gênio o mais das vezes vive estorvado

Creio ter sido Carpeaux a notar que o grande gênio o mais das vezes vive estorvado pelas circunstâncias. E mesmo que não queira, mesmo que resista, uma força parece colocá-lo em movimento, proibir-lhe a inércia improdutiva. Assim temos o perfil mais comum: um indivíduo nem pobre, nem rico; nem totalmente desprovido de meios, nem agraciado com demasiadas facilidades. Põe-se em ação; fá-lo porque precisa, porque sente pulsando um desejo e uma necessidade de superar-se, de elevar-se, que não é senão uma recusa terminante das condições presentes. Destarte, adquire uma motivação inquebrantável, disposta às últimas consequências para alcançar aquilo que se propôs. Adapta-se como pode aos estorvos momentâneos e segue adiante, sempre adiante. Então, todo esse conjunto complexo de circunstâncias de que fala Pessoa, especialmente as do ambiente, torna-lhe o espírito excepcionalmente vigoroso, para que seja por fim beneficiado pelos necessários — como também nota Pessoa — “episódios mínimos de sorte”. É um fenômeno interessantíssimo, e que dá o que pensar…

Assim como irrita a ironia machadiana mal imitada…

Assim como irrita a ironia machadiana mal imitada, — e tão imitada!, — o mesmo ocorre em poesia com essa leveza simulada, essa simplicidade querendo-se profunda, essa delicadeza que, quando não expressão autêntica de um temperamento, enfastia. Em resumo: Drummond e Bandeira. Talvez a maior maldição do sucesso seja-lhe os rebentos, isto é, os imitadores. Como é constrangedora a técnica quando exposta sem o verniz original! E ver todas essas cópias baratas pululando, tornando ridícula a própria criatividade a engendrou… Diretamente, é verdade, os originais não se maculam; contudo, é difícil que algum artista se regozije com falsificações. Restam os antídotos, e nenhum parece mais potente que inserir na própria arte excentricidades absurdas, repugnantes, as quais imitador nenhum terá coragem de se apropriar.

O casamento é a morte da poesia lírico-amorosa

Versos de Byron:

There’s doubtless something in domestic doings
Which forms, in fact, true Love’s antithesis;
Romances paint at full length people’s wooings,
But only give a bust of marriages;
For no one cares for matrimonial cooings,
There’s nothing wrong in a connubial kiss:
Think you, if Laura had been Petrarch’s wife,
He would have written sonnets all his life?

Há verdades demasiado desagradáveis e que merecidamente acabam evitadas. Não há negar: o casamento é a morte da poesia lírico-amorosa. Ou, antes, acaba esta no instante em que o desejo é consumado. Para existir, é preciso que o poeta lamente não possuir aquilo que cobice, isto é, é preciso que algo entrave a realização de sua fantasia. Os versos brotarão somente enquanto o objeto idealizado estiver indisponível, e por isso mesmo permitir-se pintado com feitio extraordinário, algo que jamais ocorrerá caso se mostre uma entidade real. E aqui vamos nós: o amor de Petrarca pariu versos porquanto não correspondido, — conclusão óbvia que dispensa sustentação biográfica, — como ocorreu e ocorre com todos os seus pares. Digam quanto quiserem, mas esta é a verdade: o poeta capaz de realizar a própria vontade dificilmente fará versos de “amor”.