A ironia de Jonathan Swift

Embora muito me divirtam as páginas de Voltaire e as de vários de seus discípulos, são as de Swift que julgo elevarem a ironia a uma manifestação verdadeiramente nobre. Não há dúvida: é preciso gênio para manejar a ironia; mas esta ironia que troça, que suscita um malicioso esticar de lábios, não é expressão de primeira categoria do espírito, lamentavelmente. A ironia de Swift raramente causa esse efeito agradável; o mais das vezes, o que ela causa é assombro. Dificílimo encontrar quem se lhe assemelhe… As linhas de Swift parecem repelir brincadeiras de qualquer espécie; a inteligência que as compreende imerge numa perplexidade que duvida daquilo que lê; é algo muito, muito distante de zombaria, mais parece agressão. Disto, notamos: se a ironia de Voltaire incomoda a muitos; não há quem escape ileso da ironia de Jonathan Swift.

A mais encantadora das sereias

Esta que é a mais encantadora das sereias, a misantropia, parece mesmo afeiçoar-se a artistas e ser-lhes, além de objeto de culto, fonte primária de inspiração. Formosíssima senhora: mais que sereia, musa! E não canso de admirar como são úteis as barreiras levantadas em redor da mente inclinada à arte. Vigny, e não Victor Hugo, e não Lamartine, foi quem personificou a plenitude da vocação poética. E pior para aqueles que buscam motivação entre pedras!

Não importa o quanto se idealize o estilo e a forma…

Não importa o quanto se idealize o estilo e a forma, ambos carecem da execução para solidificarem e alcançarem uma unidade autêntica. Executada, ou melhor, durante a tentativa de execução, a ideia torna-se mais clara e o artista evolve-a até que ela se lhe encaixe na intenção expressiva. Os lampejos espontâneos que surgem no ato de realização artística, embora não sirvam de alicerce, são frequentemente quanto abrilhanta e faz com que uma obra mereça o adjunto de arte.

Parece incompleta uma obra que não esboce…

Parece incompleta uma obra que não esboce, não arrisque soluções para os problemas que propõe. É inevitável… O alto espírito tem de esforçar-se por uma superação de si mesmo, tem de atrever-se ainda que falhe, ainda que julgue-lhe inútil o esforço após a batalha. É a única forma de aproveitar o juízo como aparato estimulante, como delineador de barreiras a serem vencidas, como desafiante dos limites da vontade. Expor problemas, portanto, parece apenas o marco inicial de um trajeto intelectual que se lhes desprende.