O difícil na construção de uma personalidade…

O difícil na construção de uma personalidade é que, grande parte do tempo, tem-se a sensação de estar agindo impelido pelas circunstâncias, cumprindo obrigações inevitáveis, e não exercendo a volição. Por causa disso, vive-se sem dar o peso devido ao ato, e não se encara a rotina como consequência de uma escolha pessoal. Sem dúvida, nisto consiste a maior vantagem psicológica de sadhus e sannyasis: queimando todos os laços materiais, já não se podem sentir impelidos a nada, nem forçados por ninguém. Mas não é preciso ser tão radical para perceber que, afinal, o crescimento pessoal aparece com a responsabilidade, e esta implica a consciência de que, o tempo todo, é possível escolher.

Sem dúvida, qualquer estabilidade…

Sem dúvida, qualquer estabilidade seria impossível caso o impulso de mudar não fosse repetidamente freado por isto que às vezes se pode chamar de prudência, às vezes de medo, às vezes de pouca reflexão. À mente, porém, nada disso importa: o impulso se repete, os devaneios seguem-no milhares de vezes, e milhares de vezes encerram em qualquer coisa que não seja ação. O budismo sabe bem o fútil e irracional que há nestes devaneios e nessa movimentação incontrolável. Porém, algo tem de significar o impulso que se repete idêntico, o anseio que não se apaga e se intensifica com o tempo. Deixá-lo aparecer e ir-se tão naturalmente como veio… Muito bem, muito bem. Às vezes, contudo, a experiência faz brotar uma pergunta; e esta, hora ou outra, se há de responder.

Há na mente uma antena cujo funcionamento…

Há na mente uma antena cujo funcionamento há de ser estudado, e da qual frequentemente derivam as melhores deliberações. É difícil compreendê-la porque, às vezes, as circunstâncias não bastam para lhe justificar a atuação. O caso corriqueiro é aquele em que estas permanecem as mesmas por um tempo prolongado, não raro por anos, e a antena permanece silente, sem captar ou emitir qualquer sinal. Então, subitamente, ela desperta, captando de uma só vez conexões infinitas, recomendando a ação imediata, urgente, antes mesmo que se defina aquilo que se há de fazer. Dá-se em seguida o fervedouro de ideias, e sobrepõe-se à tentativa de organizá-las a sensação de que muito tempo se perdeu. A agitação chega a doer; se é noite, não se pode dormir. Enfim, após algum punhado de horas eletrizantes, o pensamento se ordena e permite a deliberação. Que satisfação vem depois!

Algumas memórias, quando lançam luz…

Algumas memórias, quando lançam luz sobre aspectos do passado que passaram quase despercebidos, dão o que pensar. Parece incrível que elas evoquem sentimentos que não foram experimentados quando as circunstâncias em questão foram efetivamente vividas ou, ao menos, não se lhes atentou para o devido valor. Agora, é deixar-se mover pela saudade. Assim que parece, quando se afunda nestas lembranças, que o conjunto das situações vividas em determinado momento, ainda que aparentemente infelizes, ainda que marquem por algum aspecto desagradável, guardam, também, outro deveras especial. E é este enfim que talvez não se tenha sabido aproveitar, e que agora não se pode fazê-lo, porquanto o momento passou.