O futuro da neurociência é promissor

O futuro da neurociência é promissor: ao que parece, com mais algumas décadas de intensa pesquisa, após esgotar as possibilidades de testes de laboratório com animais, ela descobrirá que, tão logo aprende a lidar com os impulsos mais rudimentares de sua psique, o homem deixa de se comportar fielmente segundo um padrão. Aqui, então, se dará a revolucionária descoberta: ele é também um ente autônomo, e possui uma identidade individual. É mesmo uma loucura. Mas é bom pensar que, neste dia, haverá necessidade de filósofos, e então se descobrirá, mais uma vez, que são suficientes aqueles que a humanidade já pariu.

Os neurocientistas, estudando lagostas…

Os neurocientistas, estudando lagostas, concluíram que o ser humano fracassado tende a ser física e psicologicamente mais reativo a eventos que suscitem emoções, especialmente aqueles negativos, em razão de seu baixo nível de serotonina. Em contrapartida, o ser humano bem-sucedido terá a disposição contrária: será menos reativo, menos alerta, distinguindo-se como alguém calmo e confiante. Ah, como são lindas as simplificações! Será mesmo que, salvo em casos extremos, o homem fracassado torna-se reativo e psicologicamente frágil, enquanto o homem de sucesso uma espécie de fortaleza psicológica, serena e em paz? Ou será que, com maior frequência, quando se vence a adolescência psicológica, o fracasso ensina humildade e o sucesso tende a inflar o amor-próprio, o qual aprisiona, perturba, paralisa, e afinal provoca um desgosto tão severo que o homem humilde só com muito esforço consegue conceber? Qual deles será que mais teme o fracasso? Qual deles mais se inquieta com o que tem a perder?… Esse é o maior problema da ciência. O homem maduro, que não se resume a um amontoado de moléculas, se voltar os olhos ao passado, seguramente dirá: “Graças a Deus fracassei”.

O difícil na construção de uma personalidade…

O difícil na construção de uma personalidade é que, grande parte do tempo, tem-se a sensação de estar agindo impelido pelas circunstâncias, cumprindo obrigações inevitáveis, e não exercendo a volição. Por causa disso, vive-se sem dar o peso devido ao ato, e não se encara a rotina como consequência de uma escolha pessoal. Sem dúvida, nisto consiste a maior vantagem psicológica de sadhus e sannyasis: queimando todos os laços materiais, já não se podem sentir impelidos a nada, nem forçados por ninguém. Mas não é preciso ser tão radical para perceber que, afinal, o crescimento pessoal aparece com a responsabilidade, e esta implica a consciência de que, o tempo todo, é possível escolher.

Sem dúvida, qualquer estabilidade…

Sem dúvida, qualquer estabilidade seria impossível caso o impulso de mudar não fosse repetidamente freado por isto que às vezes se pode chamar de prudência, às vezes de medo, às vezes de pouca reflexão. À mente, porém, nada disso importa: o impulso se repete, os devaneios seguem-no milhares de vezes, e milhares de vezes encerram em qualquer coisa que não seja ação. O budismo sabe bem o fútil e irracional que há nestes devaneios e nessa movimentação incontrolável. Porém, algo tem de significar o impulso que se repete idêntico, o anseio que não se apaga e se intensifica com o tempo. Deixá-lo aparecer e ir-se tão naturalmente como veio… Muito bem, muito bem. Às vezes, contudo, a experiência faz brotar uma pergunta; e esta, hora ou outra, se há de responder.