Neurociência e arte

Feliz surpresa o meu descobrimento das conclusões a que tem chegado a neurociência através da encefalografia. Todas elas corroboram quanto, pela experiência, tenho definido como metodologia de trabalho ideal. E há muito, muito para se conjeturar… Dizem-nos os neurocientistas que, no estado de atividade normal do cérebro, quando desperto, há predominância na emissão de ondas denominadas beta, assim como na execução de atividades que exigem alta concentração. Em contrapartida, em estado de relaxamento, reflexivo ou meditativo, pode haver no cérebro predominância na emissão de ondas de menor frequência, as chamadas alfa. O mais interessante — embora não seja novidade — é terem notado os neurocientistas uma relação entre emissão de ondas alfa e diversas manifestações cerebrais, como a criatividade. Essas observações vêm em amparo da seguinte teoria: na arte, há dois momentos distintos do processo criativo: o da ideação e o da realização. É presumível que, realizando a obra, predomine no cérebro do artista a emissão de ondas beta, posto esteja fortemente concentrado nos detalhes daquilo que está a criar. Não é, portanto, o momento em que brilharão as melhores ideias para a obra, se estão corretas as observações da neurociência. Destarte, é preciso que o artista defina um momento distinto para concebê-las ou, noutras palavras, que distribua em etapas o esforço cerebral, a fim de explorá-lo de forma mais inteligente. Não disseram os neurocientistas o que repito: a criatividade não funciona, no cérebro, como a execução de tarefas precisas; isso quer dizer que não se pode obter resultados imediatos e com a mesma regularidade ao estimulá-la. Mas se pode, certamente, estimulá-la de forma metódica, deixando-a trabalhar em seu tempo. É por isso que ao artista cuja rotina encerra regularmente estados semimeditativos, explosões criativas estão muito distantes de manifestações de Deus.

Idêntico mecanismo de estimulação mental

Linhas curiosas deste Aleister Crowley, em Eight lectures on Yoga:

Suppose I want to evoke the “Intelligence” of Jupiter. I base my work upon the correspondences of Jupiter. I base my mathematics on the number 4 and its subservient numbers 16, 34, 136. I employ the square or rhombus. For my sacred animal I choose the eagle, or some other sacred to Jupiter. For my perfume, saffron—for my libation some preparation of opium or a generous yet sweet and powerful wine such as port. For my magical weapon I take the sceptre; in fact, I continue choosing instruments for every act in such a way that I am constantly reminded of my will to evoke Jupiter. I even constrain every object. I extract the Jupiterian elements from all the complex phenomena which surround me. If I look at my carpet, the blues and purples are the colours which stand out as Light against an obsolescent and indeterminate background. And thus I carry on my daily life, using every moment of time in constant selfadmonition to attend to Jupiter. The mind quickly responds to this training; it very soon automatically rejects as unreal anything which is not Jupiter. Everything else escapes notice. And when the time comes for the ceremony of invocation which I have been consistently preparing with all devotion and assiduity, I am quickly inflamed. I am attuned to Jupiter, I am pervaded by Jupiter, I am absorbed by Jupiter, I am caught up into the heaven of Jupiter and wield his thunderbolts. Hebe and Ganymedes bring me wine; the Queen of the Gods is throned at my side, and for my playmates are the fairest maidens of the earth.

O paralelo com a arte é perfeito. Quer dizer: tanto o mago, quanto o artista, possuem idêntico mecanismo de estimulação mental. Seguindo os passos descritos por Crowley, isto é, incitando-se progressivamente em torno de um mesmo objetivo, sem dúvida é de se esperar uma espécie de êxtase, de extravasamento psíquico no ato da concretização desta longa sequência de esforços. Tornando as lentes ao artista, ou melhor, ao poeta, é de fazer rir o sentar-se ante a folha branca à espera da “inspiração”. Certamente, um poeta que assim procede é antiprofissional. O sentar-se, na arte, é o que representa a cerimônia na magia: o artista sério deve fazê-lo somente após completa a preparação necessária e quando a sentir-se inflamado, explodindo pela expressão de determinada ideia ou sentimento. Assim alcança, após meticulosidade científica nos aprestos, o estado de espírito propício para que lhe brote em mente o brilho e a justeza na expressão.

Antero de Quental e Cesare Pavese

No diário de Cesare Pavese, o suicídio pode ser facilmente entrevisto posto que encontramos, primeiro, a ideia suicida que lhe afigura repetidamente como solução, e, segundo, oscilações temperamentais que lhe turvam a razão. Em Antero de Quental, o quadro é todo outro. Antero é, entre outras coisas, um estoico — e isso implica simultaneamente as capacidades de aceitar a realidade e de controlar a si mesmo. Em Antero, a despeito do conflito psicológico atrocíssimo, encontramos a razão tomando as rédeas do instinto, e disso decorre que o espírito, acostumado a oscilações agudas, também vê-se acostumado a convertê-las em impulsos profícuos através da meditação. Como, aos quarenta e nove anos, pôde Antero suicidar-se? Por um lado, parece-me óbvio estarmos todos sujeitos às suscetibilidades da raça; por outro, parece-me errôneo querer atribuir causas comuns a um homem incomum.

Frankl, Jung e Freud

Graças a Deus, não habito clínicas de psicologia, mas apostaria que a logoterapia de Frankl supera a psicologia analítica de Jung e a psicanálise de Freud juntas em taxa de casos de impressionante mudança comportamental e sucesso terapêutico. Na logoterapia, vejo claríssima uma porta de saída para o caso de boa aplicação; algo que enxergo, também, na psicologia analítica de Jung, mas não na psicanálise de Freud, que mais parece um sistema paliativo de que o paciente jamais se poderá livrar — ao menos, não em casos verdadeiramente sérios. É verdade: há casos e casos — talvez, baseio-me nos infrequentes para a conclusão. A psicanálise moldou-se aos seus pacientes, e para eles pode ser efetiva. A psicologia analítica, mais abrangente e profunda, também é capaz de tratá-los — embora talvez para alguns “tipos psicológicos” seja menos agradável e, consequentemente, menos satisfaça. Para muitos pacientes, basta-lhes o desabafo de rotina; mas para o desesperado, o expressamente desiludido que entre num consultório em desamparo pleno, carregando em mãos uma vida medíocre e insatisfatória, que lhe inibe metodicamente as aspirações e não entregue sentido — para este, o candidato a suicida, o sentar num divã confortável e movimentar os músculos faciais é inútil, e o discípulo de Frankl parece-me o melhor preparado para entregar-lhe uma solução definitiva e dificilmente alcançável por outras terapias.