Cioran, Antero, Kafka… todos dotados de uma mente noturna, isto é, uma mente que, contrapondo-se aos hábitos corporais diurnos, escolhe a noite para pôr-se em atividade intensa. Grande parte das noites, pois, uma verdadeira tortura, um conflito incessante que só termina quando a luz já invade a janela do quarto. O fatigado corpo pedindo descanso, e a mente tendo na quietude da madrugada o horário perfeito para trabalhar. Ideias a estourar como rojões, raciocínios que desenvolvem-se uns sobre os outros, cenas, julgamentos, aflições, planos, expectativas, tudo isso rebentando, sugando atenção quando a vontade é anulá-los todos. Então, já acostumado, o espírito passa a chamar de noites boas aquelas em que o dormir é como um semissono, — o máximo que consegue atingir, — um estado em que a falação mental confunde-se num meio-termo entre sonho e raciocínio, já automatizado por um encadeamento inconsciente e só interrompido por despertares espaçados, nos quais um lampejo consciente questiona o grau da própria lucidez. E desta rotina aparentemente terrível, muitos e muitos frutos, soluções que jamais se dariam num estado plenamente desperto, ideias que, se não oriundas do recanto mais fundo da mente, parecem colocadas pelas mãos de um espírito superior. Muito bem, muito bem: é possível aprender a gostar de noites assim — só não é possível, para uma mente como essa, o bom humor pelas manhãs.
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O homem cuja vida expressa-lhe a motivação…
Zimmermann já notava, com dois séculos de antecedência, o que seria provado teórica e praticamente por Frankl:
Une forte résolution et ce désir d’atteindre un grand but peuvent nous rendre supportables les douleurs les plus aiguës.
Se, por um lado, um homem tomado pelo vazio evidencia-lhe a fragilidade diariamente, um homem cuja vida expressa-lhe a motivação íntima, cujos passos lhe parecem justificados, cheios de sentido, este homem parece de uma espécie inteiramente diferente. É como se tivesse, por toda a vida, treinado a si mesmo para a guerra, para a privação e para a dor. Nada parece capaz de abalá-lo. Erigiu-se, com longo e paciente esforço, uma fortaleza psicológica impenetrável. A vida se lhe tornou clara e o mesmo senso de prioridades que o norteia previne-o de sucumbir ao menos importante. Aquilo que, ao primeiro, é o fim da linha, a este configura uma nova oportunidade de afirmação.
O cérebro humano sempre acaba humilhado
O cérebro humano sempre acaba humilhado quando cede à tentação irresistível de ordenar o irracional. Seria muito mais fácil se o aceitasse em suas ilimitadas manifestações, e assumisse para si mesmo os próprios limites. Não se pode concatenar o espontâneo, o inédito, o excepcional sem que se corra um risco imenso de cair no ridículo. O erro é fruto da presunção. Se a razão exige respostas, carece de lógica, deve contentar-se o mais das vezes com o processo mesmo de análise, com o simples reduzir os possíveis enganos através da observação atenta, e evitar, quanto possível, o julgamento precipitado. O irracional existe, impõe-se, e não dá a mínima para suas considerações.
A psicologia acabou se afundando…
Embora possam estar relacionadas, são coisas completamente diferentes a antipatia pela socialização e a inabilidade social. Introversão não implica, necessariamente, timidez ou inibição. Neste erro caem muitos psicólogos, e os que não caem, erram julgando a primeira um transtorno de personalidade — logo, algo que deve ser corrigido. A psicologia acabou se afundando por não ter definido, desde o princípio, o escopo de sua atuação. Entregou-se aos encantos da novidade e invadiu outros terrenos — terrenos cuja complexidade extrapola-lhe os meios de análise. Procedeu assim classificando padrões comportamentais como se fossem sempre resultado de uma fórmula estúpida, como se o homem não tivesse capacidade de julgar e escolher. Pior do que isso: sem que percebesse, estabeleceu uma escala de valores supostamente universal a ser utilizada como referência para aquilo que é ou não é normal. Destarte, erigiu um modelo humano desprovido de individualidade — um modelo, portanto, extremamente superficial.