Os escravos do passado

Se causa estranhamento, e um estranhamento legítimo, uma inteligência como Schopenhauer apegar-se a uma filosofia concebida aos trinta e passar o resto a vida a sustentá-la, que dizer de Freud, velho e de cabeça branca, a continuar limitando a psicologia humana à “sexualidade reprimida” e a traumas infantis? É o fim! Parece uma vida inteira desperdiçada, uma vida inteira em que o espírito não foi capaz de contemplar possibilidades superiores. Ou então evidência de um orgulho invencível, que tratou de sabotar-se estrangulando todo e qualquer lampejo que pusesse em risco as conclusões de anos precedentes. Como é possível, ou melhor, como não rir ao imaginar Freud, já no fim da vida, a despejar a mesma ladainha sobre um paciente igualmente velho? Dois homens, já com um caixão aberto a esperá-los, a vasculhar episódios da infância para reputá-los agentes de ações atuais. É verdadeiramente uma lástima que Voltaire tenha vivido antes de Freud.

A diferença entre as obras de Jung e Frankl

A diferença entre as obras de Jung e Frankl e quase a totalidade do que se escreveu em psicologia é que ambos arquitetaram uma psicologia para mentes saudáveis, enquanto o grosso do restante não se aplica senão a estados mentais doentios, ressaltando, sempre e somente, a morbidez de que o homem pode padecer. Um indivíduo minimamente vivido e são que escolha uma obra de Freud ou Adler para adentrar na ciência da mente sairá espantado e desgostoso, tomado de um misto de estranhamento e repulsa porque, obviamente, o homem pintado em tais obras pouco ou nada tem de comum consigo mesmo. E então verá, em cada página, intermináveis classificações de transtornos, complexos e similares, muitas vezes associados a comportamentos naturais, porém justificados através de motivos que parecem insultos diretos àquele que lê. Em Jung, em Frankl, como é tudo diferente! Nestes grandes psiquiatras, que foram também grandes homens, embora se encontre o Freud e o Adler, o alto espírito pode, enfim, se reconhecer.

A psicologia moderna, tirando do homem a autonomia…

É curioso como a psicologia moderna, tirando do homem a autonomia, pintando-o como submisso a este monstro criado por Freud, — o “inconsciente”, — acabou por desvalorizar-lhe a própria mente, o contrário do que se poderia esperar. Mesmo Jung, que tão distintamente percebeu o caráter individual da psicologia humana, parece derrapar em algumas falsas noções da psicologia moderna. Afirma ele, com algumas prudentes ressalvas, que nada influencia tão pouco nossa conduta quanto as ideias. E aqui voltamos, mais uma vez, à comparação insultuosa deste “nossa”. Qual “nossa”? Inquestionavelmente, homens diferentes fazem usos diferentes da mente que possuem. Não se há de ser filósofo para se ter uma “filosofia de vida”; e esta, que é senão o resultado prático de ideias, conceitos e julgamentos do indivíduo? Como negar as consequências práticas do raciocínio ao homem de valor? Como continuar com essa sustentação infame de que toda moral é uma construção estritamente coletiva? Se as ideias influenciarem realmente tão pouco o homem, só se pode concluir que este homem, especificamente, trata-se de uma natureza inferior.

The development of personality, de Carl Jung

Jung é realmente admirável! O esforço que empreendeu na tentativa de integrar os elementos irracionais da psique humana em sua psicologia analítica, ciente das críticas que receberia da comunidade científica, é digno do maior apreço. Jung não somente recusou-se a negar ou esconder o que via, como buscou sinceramente explicações para problemas extremamente intrincados, expondo-as ainda que a tatear na escuridão. A visão de “personalidade” que expõe neste paper traduzido como The development of personality mostra uma argúcia raríssima em filhos da academia e afronta a noção de que o homem limita-se a uma construção biológico-social. A personalidade não pode ser ensinada ou generalizada, não manifesta-se espontaneamente e consiste num ato de coragem contra o comportamento de rebanho. É um distintivo, um destino e uma maldição. É uma deliberação consciente e individual, que exige um compromisso consigo mesmo e que jamais se dá por necessidade. É, pois, uma escolha, com consequências insuportáveis à maioria e que altera por completo o paradigma comportamental daquele que a efetiva. Jung, talvez o maior dos psiquiatras modernos, foi especialmente grande por não acomodar-se no conforto dos manuais de psicologia e não ceder ao postulado delirante de que a mente humana obedece a um funcionamento universal.