É um mistério haver acontecimentos importantes facilmente esquecidos, enquanto outros banalíssimos amplificam-se pela constante repetição mental. A memória, se interrogada, não se conseguiria explicar. O resultado frequentemente confunde, e mesmo o escrutínio não vence a tendência daquela de arbitrariamente selecionar o que fica e o que se vai. Um homem, no mínimo, tem de ser senhor de sua vida pregressa; mas parece flagrante que, sem esforçar-se para domar a memória, não o será.
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É mesmo uma maravilha ler as observações…
É mesmo uma maravilha ler as observações de Szondi enquanto se tem um conhecimento dos próprios antepassados que se limita a duas gerações! Parece não haver maneira mais efetiva de produzir o retrato da desorientação. Em Szondi, os antepassados parecem sempre à espreita, buscando meios de manifestar suas tendências íntimas na vida de seus descendentes; conhecê-los, pois, é fundamental. E ver que, via de regra, os rebentos da anticivilização nada sabem sobre eles; vivem como se tivessem sido jogados na terra, lá do alto, por uma cegonha; e passam a vida assim…
Decerto, a psicologia ocidental do século XX…
Decerto, a psicologia ocidental do século XX avançou no diagnóstico e na descrição de quadros de loucura. Avançou, também, na compreensão de reações comportamentais características em determinadas condições. Expandiu, ainda, e muito, o repertório descritivo utilizado para caracterizar personalidades. Tudo isso tem valor. Contudo, parece evidente que, nesta altura, já se demonstrou impossível o sonho de uma teoria unificada. Também parece evidente que os psicólogos, em desacordo terminante sobre o que seria a tal da psique, não podem senão captá-la parcialmente, na melhor das hipóteses — aquela em que algo dela conseguem captar. Assim, cada psicólogo se acaba especializando num tipo de psique, ou em determinados aspectos da psique. Aqui, fica claro o problema. Se o psicólogo tenciona eficácia no tratamento de determinados tipos de pacientes, é seguir adiante; se, porém, busca mais do que uma terapia direcionada, talvez tenha de tomar um rumo bem diferente daquele que tomou a psicologia ocidental.
O pressentimento do perigo
Diz o caçador Jim Corbett, em Man-Eaters of Kumaon:
I have made mention elsewhere of the sense that warns us of impending danger, and will not labour the subject further beyond stating that this sense is a very real one and that I do not know, and therefore cannot explain, what brings it into operation. On this occasion I had neither heard nor seen the tigress, nor had I received any indication from bird or beast of her presence and yet I knew, without any shadow of doubt, that she was lying up for me among the rocks.
E de novo:
The premonition of impending danger is too well known and established a fact to need any comment. For three or four minutes I had stood perfectly still with no thought of danger and then all at once I became aware that the tiger was looking at me at a very short range. The same sense that had conveyed the feeling of impending danger to me had evidently operated in the same way on the tiger and awakened him from his sleep.
Agora quem diz é o montanhista Joe Simpson, em Touching the Void:
As I climbed up to rejoin his tracks it occurred to me that I had felt a moment of anxiety only minutes before Simon had fallen. I had noticed this in the past and always wondered about it. There had been no good reason for the sudden stab of worry.
E de novo:
I wanted to sleep. I couldn’t be bothered to move any more. I was warm enough sleeping on the snow. The storm would cover me like a husky and keep me warm. I nearly slept, dozing fitfully, edging close to the dark comfort of sleep, but the wind kept waking me. I tried to ignore the voice, which urged me to move, but couldn’t because the other voices had gone. I couldn’t lose the voice in daydreams. ‘…don’t sleep, don’t sleep, not here. Keep going. Find a slope and dig a snow hole… don’t sleep.’
Uma vez experimentado, a realidade de semelhante pressentimento é colocada fora de questão. E não seria exagero afirmar que aventureiros como os supracitados dependem dele e nele confiam. Os exemplos poderiam prosseguir indefinidamente… Em situações extremas, por algum motivo, algo ocorre. Se a captação do perigo é dependente da absorção total no ambiente, não se pode dizer. Mas algo se passa, e a percepção grita mesmo sem o amparo dos sentidos “tradicionais”. De muitas maneiras, o homem é bem mais interessante e complexo do que se costuma supor…