Basta de psicanálise!

Percorro uma obra interessante sobre psicologia, quando começam as referências à psicanálise. Deus! Creio-me num ponto em que já não posso mais suportá-la; foi-se o respeito, a condescendência apaziguadora. Já não parece-me cansativo, mas deprimente continuar mirando esse modelo humano medíocre proposto por Freud. Um modelo aferrado ao passado, castrado de potencialidades, para quem o futuro não é senão a continuidade do presente lamentável, o arrastamento de uma escravidão mental. Penso em Buda ou, antes, no jovem Sidarta, cuja relevância começa exatamente após a tomada de consciência da vida e a primeira manifestação da personalidade, que deliberou um rompimento abrupto e terminante com o passado — algo impossível segundo Freud. Seguiu o ex-príncipe e trilhou-lhe o célebre caminho, que não guardou absolutamente nenhuma semelhança e não sofreu absolutamente nenhuma influência determinante das experiências prévias de Sidarta. Tornou-se Buda, e antes de Buda alguém diferente, alguém cujos passos manifestavam uma vontade livre e resoluta, cujas ações afirmavam um desprendimento último não só do passado, como de todas as correntes que Freud asseverou como componentes necessários de seu modelo humano. Purificou-se escalando níveis, agregando-lhe à experiência as provações que tornaram-lhe cada vez mais autêntico, e cada vez menos o que fora. Basta de psicanálise!

O moldar-se psicologicamente

O moldar-se psicologicamente não é senão centrar-se em objetivos a serem alcançados por esforço mediante estimulações conscientes. Moldar-se, embora possa ser visto como aperfeiçoar-se, corrigir-se ou transformar-se, em suma encerra um processo em que o consciente digladia por afirmação. Define prioridades, propõe-se ação, policia-se e, com o tempo, consegue o que quer. O problema, porém, é que a mente humana é tanto mais efetiva quanto mais focada trabalhe. Disto procede-lhe uma dura limitação: por efetividade, tem de concentrar-se em fins específicos, tem de focalizar-se a atuação. Assim triunfa, mas triunfa numa parte reduzida de seu escopo. Com o tempo, o esforço transforma-se em hábito, a ação consciente automatiza-se, abrindo espaço para que novos enfoques sejam definidos. Mas o tempo é-lhe limitado… Em resumo: pode moldar-se, mas num moldar-se que define-lhe as proeminências, os ressaltos que lhe são mais importantes — e tem de resignar-se com as próprias limitações sabendo que, necessariamente, terá de lidar com uma parte incômoda e atrofiada de si mesma.

Grande parte das “descobertas” modernas nada tem de descobertas

É curioso notar como grande parte das “descobertas” modernas nada tem de descobertas. No terreno da psicologia, é dificílimo encontrar algo relevante que já não esteja esboçado — e amiúde melhor esboçado — nas obras de Doistoiévski e Nietzsche, para não mencionar os textos orientais. Mas o “desafio do urso polar” de Dostoiévski, ou a constatação de Nietzsche de que “as melhores ideias surgem ao caminhar”, em vez de serem imediatamente captadas pela intuição, tiveram de esperar um século para que fossem devidamente validadas por experimentações ociosas. A miséria deste tempo é exigir que tudo contenha-lhe o selo distintivo; do contrário, não tem valor. Assim parecem os esforços direcionados mais a afagar uma vaidade coletiva que a ampliar a extensão de quanto se pode chamar conhecimento do homem.

As melhores decisões surgem após meditação longa…

As melhores decisões surgem após meditação longa, embora disforme, que concentra-se lentamente até um ponto em que extravasa com violência num impulso que, por ação volitiva, tem a vazão permitida de imediato: concretiza-se neste impulso, e perdura frutificando. A intuição, tomada no sentido junguiano, quando desenvolvida é capaz de manifestar-se carregada de uma certeza que sobrepuja o raciocínio. É o clarão de uma faculdade preciosa. Contrariá-la, nestes casos, é malbaratá-la. Por isso é justa a paciência em decisões importantes — mas, por vezes, o mais proveitoso é ter coragem para seguir a própria intuição.