Exercicios espirituales, de Inácio de Loyola

Percorro estes Exercicios espirituales, de Inácio de Loyola, e não posso deixar de imaginá-lo a compô-los nas condições incrivelmente miseráveis descritas em sua biografia. A comparação com Frankl é inevitável. Se confrontamos o teor destas linhas, ou melhor, se consideramos estas linhas como originárias das circunstâncias que rodeavam-lhes o autor, deparamo-nos com uma pujança psicológica inquebrantável capaz de proezas quase sobre-humanas. Enfim, vemos método no esforço consciente em atribuir sentido para as misérias vivenciadas, na afirmação contínua de um voto, na superação dos próprios limites, na transformação da mente em fortaleza indestrutível. Esses Exercicios atestam a vitória absoluta de Inácio sobre o meio circundante e sobre si mesmo. Linhas admiráveis!

A biografia de Inácio de Loyola

Parece fictícia a biografia de Inácio de Loyola. Lê-la neste século, lê-la no ocidente observando que se tornou o ocidente, suas grandes cidades, suas preocupações, é como colocar-se diante de uma narrativa absurda. É de causar assombro a simplicidade como fatos estupefacientes se apresentam nesta “Autobiografia”, redigida pelo P. Luís Gonçalves da Câmara, que limitou-se a transcrever quanto ouviu da boca de Inácio. Algumas poucas vezes, lemos Inácio ter corrido risco de vida em sua trajetória, mas a impressão que ficamos é que, desde que saiu da casa paterna, esteve ele sempre em constante ameaça. Prisões, julgamentos, perseguições, doenças, incrível penúria… é difícil imaginar condições mais severas para este homem reputado santo. O simples superar a sexta década de vida, como fê-lo, já se afigura a nós, homens mal-acostumados, um verdadeiro milagre.

É realmente admirável a maneira como Swami Vivekananda…

É realmente admirável a maneira como Swami Vivekananda interpretou e expôs o hinduísmo, integrando-o, alargando-lhe os braços e convertendo-o num legítimo catalisador de transformações positivas para o ser humano. Seu Raja yoga é a exteriorização de uma filosofia nobre, corajosa e estimulante. Pouquíssimos são os autores capazes de compreender em profundidade a condição humana e oferecer uma solução que não implique a repressão forçada ou o desvanecimento da vontade. Swami Vivekananda, em vez de conduzir a um agravamento de tensões ou ao eclipse da consciência, propõe uma conduta mental ativa direcionada à elevação da própria natureza. Constrói, engrandece, encoraja a superação. Grande homem!

As religiões sempre medraram em meio a intenso conflito

Foi algum teosofista que disse as religiões terem surgido adequadamente, cada qual à civilização em que irrompeu. Parece uma afirmação demasiado poética, que implica uma harmonia universal só existente na fantasia, e refutada violentamente pela história. Antes de civilizações, há indivíduos, e a estes geralmente não é oferecido um cardápio de crenças, para que eles escolham conscientemente a mais adequada a si mesmos — pior seria julgá-los essencialmente adequados ao próprio meio. O correto seria dizer que as civilizações moldaram as religiões que em si floresceram, sendo elas apropriadas ou não. As religiões sempre medraram em meio a intenso conflito, verdadeiras batalhas quer a nível social, quer individual. A primeira prova de uma religião é sobrepor-se às crenças anteriores. Disso extrai-se o óbvio: tivessem nascido as religiões tão perfeitamente adequadas ao meio, teríamos paz, e não, como evidencia a história, uma progressiva e violenta “adequação”.