O cinema, a música e o teatro, em comparação com as artes plásticas e a literatura, possuem a desvantagem de se verem contaminados de operários que se julgam, mas não são artistas. E daí nasce uma série de consequências que só podem frustrar aquele que pariu a criação. Deve ser angustiante para um compositor perceber possível fazer carreira de virtuose executando obras dos outros, e confrontá-lo com o cenário despojado das facilidades que a primeira opção oferece, caso opte por se concentrar em suas próprias composições. Mais angustiante deve ser acompanhar o reconhecimento de operários da música como artistas. Ao menos, da angústia nascerá a certeza de que sua arte só se faz solitariamente, e de graça. Daqui em diante, jamais confundirá a verdadeira com a falsa motivação.
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Eram grandes artistas a comandar os teatros
Quando se olha para trás e se nota que, há não muito tempo, eram grandes artistas a comandar os teatros, definir-lhes a programação e, portanto, determinar as obras com as quais o público entraria em contato, percebe-se que, em algum momento na história, mudou-se a ordem e a grande arte desapareceu dos cartazes. Salvo exceções honrosas, o que houve foi uma inversão completa: antigamente, o diretor do teatro selecionava o que o público veria; agora, é o público que dita o que o diretor tem de apresentar. Assim, os mesmos estabelecimentos antes consagrados à arte tornaram-se casas de entretenimento. É como se o mundo moderno já não visse potencial educativo na arte, concentrando-se em outros interesses. Se algo há de se concluir é que a alta cultura, embora hoje mais acessível, já não bate por acaso na porta de quem a não procurar.
Levar a vida demasiado a sério
Diz Chamfort:
Le théâtre tragique a le grand inconvénient moral de mettre trop d’importance à la vie et à la mort.
É verdade… Não há negar que o levar a vida demasiado a sério traz inúmeros inconvenientes, a começar pela angústia inevitável. Dando muita importância à vida e à morte e percebendo que ambas, em grande medida, escapam-lhe ao controle, o espírito experimentará o desespero. Porém, algo se há de notar: o realce é necessário para que o teatro comova; a mensagem de uma peça jamais terá o mesmo efeito se desprovida do exagero dramático. Para dizer como Nelson: a ficção, para que purifique, precisa ser atroz. Mas, talvez, sejam estes inconvenientes necessários não só ao teatro, como à própria vida, posto que em completa indiferença o homem permanecerá, sempre, exatamente onde está.
Independência e resolução
As reações do público a uma peça dramática ensinam sobre a arte. Ao público, geralmente agredido ao final do último ato e imediatamente após a agressão, é concedido o direito de resposta. Então ecoam as vaias, os impropérios e similares. Dizemos, é claro, do público espontâneo — sincero, selvagem — e em primeiro contato com a peça. Uma peça já representada, ou antes, um público conhecedor do clímax do drama age de forma totalmente diferente: comparece ao teatro para analisar performances e decidido a aplaudir. O curioso é que, em vida, os grandes dramaturgos não costumam produzir sob o estímulo dos aplausos; e o público, que geralmente é maestro da crítica, contribui para a sua execração. Assim vemos a arte como que forçando a autonomia do artista ao atirá-lo em confronto contra a maioria. Parece perguntá-lo: “E então? és capaz de seguir adiante, contrário a todos?”. A questão não cede espaço a evasivas: a arte parece exigir independência e resolução.
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