O brasileiro parece fadado a não superar a juventude, ou, pelo menos, a ter de vivenciar por muitos anos um contraste incômodo entre suas preferências e sua idade, até que a natureza dê cabo da situação. Ainda assim, são permanentes os efeitos psicológicos deste problema que, em verdade, não tem razão de ser. Toda essa dificuldade em enxergar o passado como etapa concluída, sem renegá-lo nem desmerecê-lo, mas admitindo que não mais condizem as antigas inclinações, é algo que só pode ser atribuído a uma formação deficiente. Não é o medo, nem uma verdadeira identificação que impede o avanço no tempo, mas a incapacidade de enxergar na vida uma finalidade com a qual este só tende a contribuir.
Categoria: Notas
Ao leitor, nada se iguala aos momentos…
Ao leitor, nada se iguala aos momentos em que parecem sair de si mesmo as linhas que lê. Das variadas sensações que a literatura pode produzir, talvez seja esta a mais especial, uma vez que, dentro ou fora da literatura, são raros os momentos em que se presencia semelhante identificação. E se, na vida, ela produz amizades verdadeiras, na literatura ela dá origem a um laço similar. Dali em diante, partilharão aquelas linhas do grupo das mais estimadas e o autor estará entre os prediletos, ainda que, perante outros, pareça inferior. É pena que, geralmente morto, o autor não poderá desfrutá-lo; mas, se lhe fosse dada a escolha, não há dúvida que trocaria um mar de leitores por uma única conexão assim.
Tudo o que envolve a criação de uma obra literária…
Tudo o que envolve a criação de uma obra literária, tal como aquilo que diz respeito à evolução na arte da escrita, é irrelevante se não fundado no compromisso da dedicação regular. Indispensável, só esta parece ser. E só esta parece garantir, por si só, tanto a obra como a evolução, ainda que não se planeje muito, ainda que não se estude muito. A prática revela o verdadeiro de qualquer teoria e, sem ela, nunca se alcança a real assimilação. Assim, a despeito de todas as diferenças e inclinações particulares, neste ponto identificam-se os grandes mestres da literatura universal.
O termo “religiões” é dos mais enganosos
O termo “religiões” é dos mais enganosos, e joga num ridículo indescritível aqueles fanáticos, conhecedores de apenas uma delas, que se põem a declamar opiniões. Um pouco de leitura é suficiente para demonstrar que as chamadas religiões possuem um vocabulário próprio e falam de coisas diferentes. Se por vezes as traduções podem passar uma outra imagem, tradução nenhuma será capaz de trair o conjunto, ostensivamente original. Daí que, quase sempre, para enxergar um conflito direto entre elas é preciso fabricar um espantalho, algo que só pode revelar a ignorância de seu fabricante. Mas não adianta: é preciso um esforço tremendo para impedir a vaidade de se manifestar.