Talvez o que haja de mais efetivo na tradição…

Talvez o que haja de mais efetivo na tradição oriental, centrada em formar indivíduos através de uma relação única entre mestre e discípulo, seja a noção claríssima que se consolida na mente do discípulo, o qual, ciente da extensão de sua dependência do exemplo do mestre, apreende a importância de ser exemplar. Daí só decorrem efeitos positivos, e o hábito se cultiva embasado na certeza de que somente a ação edifica. O discípulo, imitando o mestre, torna-se um mestre; passa a ensinar como aprendeu, e não perde jamais a gratidão que se manifesta no sentimento de que, em verdade, não fez senão receber.

Dificilmente se consegue direcionar a vontade…

Dificilmente se consegue direcionar a vontade e controlar quando se alcançará aquilo que se quer. O mais das vezes, quando o tempo não faz com que o intento esmoreça, seja este de longo prazo e, então, virá apenas quando tiver de vir. Salvo engano, é Swami Sivananda quem diz que os desejos mais nobres só se realizam ao renunciá-los, após muitas lágrimas e grande desgaste. Seja como for, a imersão no processo às vezes distrai a mente do avanço que faz; progride-se imperceptivelmente, quando não se experimentando a sensação de estagnação. Quando menos se percebe, atingiu-se o objetivo desejado ou, em casos mais belos, este simplesmente aparece, como por graça.

O que há de mais divertido na escrita

O que há de mais divertido na escrita é a possibilidade de individualizar completamente o processo, de maneira a fazer com que o elemento subjetivo atue como potencializador. Na maioria das ocupações, isso não é possível, e a eficácia do processo costuma demandar uma execução sequencial objetiva, algo que, com o tempo, tende a desestimular. Mas o escritor pode muito bem habituar-se a passar um café, ou acender um cigarro nos momentos anteriores ao trabalho, e presenciar, efetivamente, que ao fazê-lo as ideias começam a se mover. No seu processo criativo, há lugar para todas as suas manias, e isso produz uma enorme satisfação.

Um aspecto negligenciado, mas que demarca…

Um aspecto negligenciado, mas que demarca muito bem a evolução de uma personalidade, é a sucessão de rompimentos, conscientes ou não, que vai solidificando aquilo que se pode chamar de passado, e aumentando a lista daquilo que já se superou. Aqui, entram as amizades. Perdê-las sem traumas, de bom grado quando não também voluntariamente, é sinal de que se caminha em alguma direção. Assim, o não perdê-las deveria preocupar, como o deveria a ausência prolongada de rupturas significativas, por talvez sinalizarem uma indesejada estagnação. Quando se avança, algo sempre se deixa para trás.