O mais desafiador exercício de concentração e paciência é, sem dúvida, o escrever rodeado de barulho. Encadear raciocínios com a mente invadida por ruídos exteriores é como colocar um gravador de som no meio de um campo de batalha e, empunhando um violino, atribuir-se a missão de gravar uma música completa. Há, é verdade, ruídos e ruídos. Nenhum deles parece superar a força da voz humana, em suas infinitas manifestações. As palavras, no cérebro que raciocina, parecem invadi-lo e se interporem no espaço que separa os vocábulos do projeto de frase, inviabilizando qualquer formação lógica sólida, exigindo que o esforço se recomece e se recomece de novo. Enfim, é um exercício de resultado quase sempre inútil; exceto pelo fato de que aquele que o pratica com regularidade dificilmente se irritará em outras ocasiões.
Categoria: Notas
Parece mesmo o riso consistir…
Parece mesmo o riso consistir na superior entre todas as manifestações últimas do espírito. Por isso, é válido e até necessário que haja um esforço consciente, em casos onde não se dê de forma espontânea, para que irrompa como uma vitória sobre tendências mais naturais e imediatas. A indignação e a tristeza são muitas vezes justificadas, mas jamais podem representar a superação das circunstâncias que as desencadearam. Se estimulam, é o máximo que podem fazer. A vitória sobre quaisquer circunstâncias implica um desprendimento que permite mirá-las e sorrir.
O mérito de descolar-se do presente…
O mérito de descolar-se do presente parece residir justamente na dificuldade de fazê-lo. Uma vida dedicada ao futuro ou, noutras palavras, uma vida centrada naquilo que permanece — eis o cenário ideal. Ocorre que, a contragosto, o presente está sempre interferindo, e poder-se-ia indagar se não depende a literatura deste choque, que acaba escancarando o problema da impermanência. Quer dizer: para além da necessidade expressiva, a literatura nasce de uma necessidade de preservação. Mais se afaste de ambas, mais o artista se deteriorará. E assim que, ainda que se possa idealizar um cenário onde os esforços convirjam inteiramente para o duradouro, parece de alguma maneira ser necessário que o presente lembre repetidas vezes sua razão.
Iriam para a cadeia
Impressiona notar a facilidade com que escritores dos últimos dois séculos iriam para a cadeia, caso publicassem hoje o que publicaram há poucas décadas atrás. Seriam ferozmente perseguidos, ferozmente censurados e, a menos que salvos por uma raríssima confluência de fatores, ficariam impedidos de escrever e publicar. Mortos, porém, salvo algumas exceções, permanecem tolerados, se não ignorados. Isso evidencia tanto o caráter histérico e autoritário deste século, como tornou-se, mais do que nunca, preferível o anonimato.