Aquele que toma consciência de que o tempo é a substância da vida conclui, por dedução, de que viverá tão melhor quanto melhor empregar o tempo de que dispõe. Então perceberá, primeiro, que não dispõe de tempo algum, senão o agora, e que portanto, estendendo a conclusão anterior, viverá tão melhor quanto melhor empregar o agora. O passo seguinte é o que frequentemente desalenta, e por vezes conduz ao suicídio. O bem empregar do agora está condicionado a meios apenas parcialmente controláveis e sempre sujeitos à roda da fortuna. Assim que, para alguns, é possível apegar-se a um tempo provável como aliado contra o mais que a fortuna se lhes pode interpor aos objetivos; para outros, porém, avessos ao indefinido, cuja sensatez exige o apegar-se apenas ao que há de certo, é insuportável o constatar que, de certo, há apenas a submissão à necessidade mais imediata.
Categoria: Notas
Há entre o misantropo e o seu tempo…
Há entre o misantropo e o seu tempo uma distância intransponível que se revela a cada tentativa de aproximação. O misantropo que abra um romance contemporâneo dificilmente conseguirá finalizá-lo, posto que será tomado gradativamente de um sentimento de repulsa que o forçará atirá-lo para longe, caso não queira submeter-se a uma tortura da qual nada tem a ganhar. De quem é a culpa? Certamente, não do romancista, que o mais das vezes não está senão cumprindo parte de sua obrigação para com o futuro ao descrever minúcias e particularidades. Mas não desce! Não há solução! Sua obra a cada passo, a cada cena suscitará sentimentos ruins que uma hora sufocarão o animal inadaptado, e este terá de abandoná-la, se possível esquecê-la. O misantropo é alguém deslocado no espaço e no tempo.
Damos mais valor a obras que…
Enfim, damos mais valor a obras que, sob uma perspectiva inteiramente subjetiva, geram um impacto maior. É esse o único parâmetro que nos importa deveras. Parece, também, ser o mais justo, posto que independente de nossas predisposições. Não podemos controlar aquilo que uma obra é capaz de gerar-nos, e disso percebemos que nada podemos fazer quanto à sua força. Assim, em última instância, ao nosso julgamento basta-lhe a sinceridade para admitir o quanto uma obra foi capaz de nos transformar.
Há linhas que, ainda que nos pareçam…
Há linhas que, ainda que nos pareçam repletas de absurdos, conduzem-nos o pensamento a áreas interessantíssimas e por vezes inexploradas. Por isso, faz bem que incentivemos a exploração do contrassenso: dele ocasionalmente extraímos o inédito e inesperado, e podemos chegar a paradeiros surpreendentes, ainda que não tenha sido esta a intenção do autor que está em nossa companhia. Faz diferença? Parece que não…