É notório que as chamadas predisposições temperamentais se apresentam quase sempre ancoradas na experiência, retirando, portanto, boa parte do sentido que parecem sugerir. Muito do que diz a psicologia sobre o condicionamento ao meio e seus impactos a longo prazo é decididamente verdadeiro, e é indiscutível que o ambiente interfere e molda, sendo seu efeito proporcional ao tempo de exposição e intensidade do contato. Assim, queira-se ou não, dele se carrega algo e, exatamente por isso, o distanciar-se é fundamental em caso de que esse algo se incline ao indesejável. Bloquear-se e criar barreiras psicológicas para se lhe evitar a influência é possível e, em casos extremos, imprescindível; mas uma experiência, ainda que dela se extraia frutos, não pode, a despeito de quanto se queira, ser simplesmente apagada.
Categoria: Notas
Do ponto de vista de formação do caráter…
Do ponto de vista de formação do caráter, é curioso notar como as facilidades, tão desejadas, são quase sempre inúteis e, se disponíveis em grande quantidade, certamente nocivas. Quando notamos as profundas cicatrizes que se escondem por trás de um grande caráter, temos de nos render a esta beleza tardia, mas perene, que delas é proveniente. Parece irracional ansiar por agruras; contudo, quando se volta os olhos ao passado, há de se reconhecer que nada como elas é capaz de transformar para melhor.
Se é necessário que o escritor estabeleça…
Se é necessário que o escritor estabeleça um elo com seu tempo, ele não pode fazê-lo senão o vivendo. É inevitável… por mais que se tente, não se pode sentir um tempo passado ou futuro como o sentiram e o sentirão aqueles que nele viveram ou hão de viver. Por isso, só se pode ter de um tempo longínquo uma noção, e uma noção inteiramente dependente do grau com que o escritor o sentiu na carne para então nos descrever. Desta forma, viver o próprio tempo pode ser pelo escritor encarado como uma missão em benefício daqueles que ainda não nasceram, e portanto é perfeitamente possível, e até necessário, que ele encontre sentido naquilo que pareça desagradável e importuno: só assim ele poderá ser útil e imprescindível àqueles que virão.
Definições imprecisas
Salvo engano, Freud disse da misantropia “um estado psíquico”; no dicionário, encontramos uma chocha “falta de sociabilidade”. Ambas as definições são vistosamente imprecisas, por esconderem o caráter essencialmente ativo da misantropia. Por isso, é preciso que um especialista refaça o trabalho malfeito e nos ilumine sobre o sentido deste vocábulo tão especial. Muito obrigado. A misantropia é um esporte. Nele, duas equipes se confrontam: a do misantropo, constituída por ele mesmo; e a da humanidade, constituída por todas as outras pessoas. O objetivo do misantropo é evitar a humanidade, e o objetivo da humanidade é importuná-lo. O diferencial deste esporte é que seu praticante pratica-o o tempo inteiro, e cada lance de sua vida pode ser considerado uma jogada. Tomemos o futebol como referência. Se o misantropo, por exemplo, ao perceber a ameaça de uma abordagem na rua, saca do bolso o celular e finge atender uma ligação, ou simula estar concentrado para não tomar parte em uma conversação estúpida à sua volta, ele efetua algo como um drible. Se falta a qualquer ocasião social, é como se marcasse um gol. Fernando Pessoa fingiu-se doente para faltar a um Natal em família: gol honesto. Um belo gol seria o que fez Karl Kraus na ocasião em que, perguntado num trem se seria ele o célebre Karl Kraus, respondeu o desconhecido com um rotundo “não”. Thoreau, mudando-se para uma floresta para viver entre animais selvagens, anotou um golaço semelhante ao de Maradona contra a Inglaterra na Copa do Mundo de 1986. E por aí vai… Com esses poucos exemplos, já se percebe que a misantropia nada tem de passiva ou de passageira, sendo muito menos um “estado psíquico” que uma prática diária e maravilhosamente estimulante. Muito obrigado.