A guerra da informação

O que torna a guerra da informação ainda mais abominável que aquela travada em campos de batalha é a ausência de qualquer código de guerra. Consequentemente, dá-se o vale-tudo. O que espanta notar é o número daqueles que ainda não perceberam haver, de fato, uma guerra em curso neste campo. Tal se justifica em grande parte por nenhum dos que ferozmente combatem haver publicado, como pede o protocolo, uma declaração de guerra. Então que aqueles que inocentemente se lhes entravam o caminho são acometidos por uma violência total que não tem o menor escrúpulo para destruir e não admite anistia. Esmagar o adversário, e fazê-lo por quaisquer meios que estejam à disposição, de preferência sorrateiramente, à socapa, para que a agressão não seja identificada ou, no mínimo, seja impossível identificar o agressor. É uma guerra que, em suma, adicionou infâmia à violência pura.

Um extraordinário acelerador da consciência

Diz Brodsky, em tradução portuguesa de um de seus discursos na Suécia:

Aquele que escreve um poema o faz, acima de tudo, porque escrever versos é um extraordinário acelerador da consciência, do pensamento, da compreensão do universo. Aquele que experimenta essa aceleração uma vez não consegue mais abandonar a chance de repetir essa experiência, caindo na dependência do processo, como outros o fazem com drogas e álcool. Aquele que se encontra nesse tipo de dependência da linguagem é, acredito eu, o que chamamos de poeta.

É realmente indescritível a sensação de escrever um poema e, em seguida, analisar o processo. Da ideia ao verso finalizado transcorrem etapas que exigem, primeiramente, a tomada de consciência — para dizer como Brodsky — da ideia, a sua visualização precisa; em seguida, é preciso expressá-la, materializá-la na linguagem. O resultado desta realização é, para o poeta, a assimilação e o domínio daquilo que, anteriormente, não era senão algo opaco. Há casos, porém, que o resultado é ainda mais impressionante, e a ideia desenvolve-se de maneira inesperada: é como se o poeta, à medida que avança no poema, avançasse no próprio pensamento, como se desbravasse o desconhecido e, no fim do processo, aumentasse o escopo de sua percepção.

Menos o homem que seu estado de nervos

O estilo, diz Brodsky, é menos o homem que seu estado de nervos. Muito bem observado! E é possível dar um passo adiante dizendo que há, em todo escritor, o homem que vive e o homem que escreve — ou, noutras palavras, o homem que pensa e o homem que age. O estilo é, em grande medida, o efeito emocional e psicológico desencadeado pelo ato de escrever. O moralista é amargo porque é justamente de amargura que se enche quando escreve sobre aquilo que escreve. Igualmente um estilo grandioso revela um sentimento de grandiosidade. O poeta é um fingidor, diz um verso de Pessoa — mas apenas até certo ponto. Invariavelmente, só se pode expressar aquilo que se pode sentir.

O que o leitor busca

Brodsky diz algo sumamente verdadeiro: o que o leitor busca, na literatura, é ler sobre si mesmo. Isso justifica, da parte do leitor, as preferências literárias; por conseguinte, da parte do escritor, justifica-lhe o sucesso ou a rejeição. Se identificamos o sucesso com a popularidade, o autor de maior sucesso será o mais popular, e é fácil perceber que, para sê-lo, terá de se aproximar mais que os outros da realidade do indivíduo comum. O que o leitor busca, em suma, é um livro que poderia ter sido escrito por ele mesmo. E isso diz tudo.