O que melhor caracteriza a modernidade é a vingança do homem comum sobre o homem de gênio. Em todas as esferas, são seus interesses que predominam; para onde quer que se volte os olhos, é sua face que se encontra em destaque. A vitória é completa. E exatamente disso deriva o sufocamento da cultura e das altas aspirações, que ora encontram uma hostilidade quase invencível para germinar. O homem comum as não tolera, e bate nas portas como missionário a fim de doutrinar. Talvez nunca tenha sido tão difícil e tão necessário um esforço para ignorá-lo e não se permitir contaminar.
Categoria: Notas
Os pontífices da lucidez humana
Poucas obras suscitam gargalhadas tão sinceras quanto as destes “homens da ciência”, como Max Nordau e Cesare Lombroso, que se arrogam o papel de pontífices da lucidez humana e juízes supremos da sanidade mental. Enfim, é preciso admirá-los pela ousadia de empacotar os maiores gênios da história da humanidade, de Mozart a Shakespeare, e taxá-los todos de loucos degenerados. São eles os verdadeiros pais da psiquiatria moderna, que tem no bobo alegre o modelo perfeito de sanidade mental. Um homem comum facilmente identifica o original como doente, mas é preciso ser um visionário para enxergar na própria criatividade um distúrbio mental. Assim como palhaços talentosos, estes homens não merecem de nós senão aplausos efusivos e enorme gratidão.
O filósofo que não consiga ensinar…
O filósofo que não consiga ensinar algo valioso de forma simples a um homem comum deveria aposentar-se. Talvez em nenhuma outra área seja a clareza uma qualidade tão necessária, e uma manifestação mais evidente de domínio sobre a matéria tratada. São muitos os pecados perdoáveis, e muitos os defeitos que sequer arranham o pensamento de um filósofo; mas a partir do momento em que o discurso, através dele, torna o assunto mais confuso, o melhor que faria é retornar em silêncio aos estudos, senão abandoná-los para sempre e buscar uma nova ocupação.
É possível traçar um paralelo entre vidas coetâneas…
É possível traçar um paralelo entre vidas coetâneas e identificar, na imensa maioria das vezes, períodos decisivos que ocorreram em idades muito próximas nos quais se destacaram temas semelhantes. É preciso vê-lo e compará-lo repetidas vezes. Este fato evidente e verificável talvez seja o mais forte argumento daqueles que afirmam haver uma correlação entre o tempo e as existências individuais, especialmente porque se nota que muitos dos temas destacados não se dão em decorrência de uma convenção ou algo induzido pelo meio: repara-se, uma e outra vez, períodos em que se parece manifestar o gênio e períodos em que se parece decidir a sorte. A partir do momento em que se adquire coragem suficiente para assumi-lo, já não se pode mais suportar a ausência do porquê…