A aflição do intelectual é ver-se impotente perante o curso natural do pensamento de sua época. Ainda que decida fazer algo, será inútil e frustrante. As qualidades que precisa para impor-se e influenciar são frequentemente opostas àquelas que cultivou para tornar-se. Mas não deve lamentar, porque enfim não interessa o “pensamento de sua época”, senão como matéria-prima para suas reflexões. Os modismos caem como surgem, levando consigo seus ideólogos e entusiastas. Não se deve e nem se pode esperar nada senão de uns indivíduos isolados que fazem com que a vida intelectual seja gratificante.
Categoria: Notas
É sempre belo dedicar-se a causas perdidas
É sempre belo dedicar-se a causas perdidas, mas é pouco inteligente permitir-se fritar os nervos por elas. Dedicar-se e nada esperar em troca; dedicar-se a despeito do fracasso inevitável: isso basta. E no mais, deixar que as coisas corram como devem correr, não se preocupando senão como se preocupa com o dia nascer chuvoso ou ensolarado. Fazer o digno e reconfortar-se na consciência; e o resto, que seja como tiver de ser…
Se é ostensivamente verdadeiro…
Se é ostensivamente verdadeiro que as universidades brasileiras se tornaram instrumentos de doutrinação ideológica, e consequentemente os diplomas atestados de submissão, não há como almejar solução para a miséria intelectual em que o país se meteu que não a total ridicularização e o total desprezo às universidades e aos títulos acadêmicos por parte de uma intelectualidade real que emerja de forma independente e se contraponha ao escárnio que foi feito de forma maliciosa e incrivelmente bem-sucedida no país. Não há saída que não passe pela destruição metódica e completa deste império espúrio que foi levantado e usurpou a finalidade da educação superior. É claro, é claro… o mais provável é que nada disso aconteça. E continuaremos bem…
Diversão e sorte
É divertido imaginar Fernando Pessoa a pegar um guardanapo num boteco, rabiscar algumas linhas num garrancho quase ilegível e atirá-lo, aos risos, ao seu grande baú. E passar a vida rindo ao repetir infinitas vezes a mesma cena, imaginando o trabalho monstruoso que estaria delegando a homens que sequer conheceu. Deixar, pois, uma papelada gigantesca e desorganizada, e que se virem os editores! É algo sem dúvida divertido e tentador. Contudo, Pessoa, que admiravelmente transformou a desorganização em método, teve a sorte, primeiro, de encontrar editores, e, segundo, de encontrá-los competentes. Alguém que se arrisque a seguir-lhe o exemplo deve, portanto, ter muita fé, além de desenvolver essa invejável capacidade de defrontar uma bagunça aceitando-a como aquilo que dedicou a vida a produzir.