Se a linguagem é autêntica, nunca se imita

Se a linguagem é autêntica, nunca se imita. Mas ocorre que um autor autêntico jamais se limita à linguagem. É por isso, aliás, que traduções soam tão estranhas: porque a linguagem é mais que somente palavras. Uma mesma ideia não se veste da mesma maneira em duas línguas, e uma tradução literal quase sempre é insuficiente para traduzi-la. Assim que uma obra traduzida é sempre outra, diferente da original. A linguagem autêntica, pois, é o veículo pessoal de uma expressão pessoal; e ainda que se tente, é impossível copiar esse caráter inteiramente individual que resta impregnado, queira-se ou não, nas linhas de um autor.

Se um povo não possuísse nenhum distintivo…

Se um povo não possuísse nenhum distintivo além da linguagem, esta já seria suficiente para dar-lhe uma literatura inteiramente original, ainda que se limitasse refazer o já feito em outros idiomas. Quer dizer: se a linguagem é autêntica, nunca se imita, porque nela sempre haverá algo de singular. Mas além disso: a maior literatura será aquela que englobar, no próprio idioma, a maior gama de modelos e temáticas, e portanto é mais que conveniente, mas necessário repensar na própria língua o que já foi pensado noutras, recriar o já criado dotando-o, pela linguagem, de cores autenticamente vernáculas: só assim se constrói uma tradição literária vigorosa e de valor universal.

Há frases que valem mais do que livros

Há frases que valem mais do que livros, e é interessante notar como nem sempre o estudo aprofundado é fonte da maior inspiração. Há em quem uma frase potente ou mesmo um resumo repercuta com intensidade capaz de gerar consequências decisivas, transformadoras e inimagináveis. São casos em que o impacto, pela própria força, dispensam quaisquer análises ou reflexões posteriores. E então a frase, assimilada, permanece em mente associada ao clarão que carregou junto de si. É saber valorizá-las.

O Brasil é o país onde intelectuais verdadeiros…

Destacadamente, o Brasil é o país onde intelectuais verdadeiros, quando não invejados, — manifestação rara só possível naqueles que os reconhecem, — são de praxe ridicularizados. A índole do povo repugna o estudo sério. Somando-se a este fato uma infinidade de outras precariedades, temos que as circunstâncias em que vigoraram os grandes intelectuais brasileiros, na melhor das hipóteses, foram-lhes inimigas, ainda que não agressivamente, mas incentivando-os a tomar outra direção. O mais frequente, porém, é um cenário nocivo a um nível inimaginável à maior parte dos pensadores mundiais. E vemos que, no Brasil, por algo que parece mais que uma coincidência, quase todos os grandes intelectuais provieram de berços modestos e, num esforço individual e solitário, triunfaram não só intelectualmente, mas contra a própria realidade. Sem dúvida, tal é digno de grande reconhecimento, e o desprezo que os envolveu antes e frequentemente depois da morte é algo que não faz senão aumentar-lhes o valor.