Não há modelos humanos mais desprezíveis…

Não há modelos humanos mais desprezíveis do que estes que, deparando-se com uma inferioridade real ou imaginária, fazem questão de humilhar. Faltam palavras… Tal manifestação de má índole não se dá senão em espíritos vis, merecedores do desprezo mais pleno em todas as esferas. A satisfação que colhem desta arrogância, que parece elevar-lhes o senso de importância, deveria, num mundo justo, ser sucedida de uma humilhação tão completa que proibisse, até o fim da vida, a mera ideia de que talvez pudessem ser em algo superiores a alguém.

Poucas coisas são tão deliciosas…

Poucas coisas são tão deliciosas quanto planejar e antever, neste ato, tudo ocorrendo conforme o previsto. E então permitir-se navegar nas plácidas águas do otimismo, alegrando-se antecipadamente porque o planejamento haverá de correr bem. Que satisfação! O melhor é poder fazê-lo sempre, e sempre usufruir desta sensação expansiva e revigorante que só a inocência é capaz de entregar.

A literatura não precisa de leitores

A literatura, ao contrário do que pode parecer, não precisa de leitores para que sobreviva. Em verdade, não precisa de nenhum leitor, nunca — basta-lhe um punhado de artistas verdadeiros. Enquanto houver alguém, como Pessoa, a enxergar num Antero um irmão de espírito, a literatura perdurará. E é indiferente que a humanidade desconheça tais homens, que a esmagadora maioria nunca lhes ouça uma palavra: basta que um deles nasça, e cumpra-lhe a missão de colocar mais um elo na corrente.

A chama da vocação

Talvez seja mesmo impossível explicar a um imbecil doutrinado na psicanálise, que dedicou a vida inteira aos interesses mais mesquinhos, cultivou as relações mais fúteis e jamais presenciou um ato nobre, um ato corajoso de assunção que contrarie aquilo que é conveniente o que é essa chama, esse impulso ativo que, uma vez manifesto no espírito, traça uma linha divisória na vida daquele que o experimenta. E é também inevitável que um sujeito como o primeiro utilize as lentes que possui para julgar ações alheias: de que outra forma poderia fazer? Assim que o próprio insulto é inevitável, e talvez tenha de ser perdoado por originário de uma incompreensão involuntária. De um lado, temos uma resolução inquebrantável, um espírito disposto às últimas consequências e a tudo largar pela missão que lhe parece a finalidade da existência; temos uma transformação por vezes tão completa que anula qualquer identificação com o passado. Do outro lado, temos um homem comum.