Do ponto de vista de formação do caráter, é curioso notar como as facilidades, tão desejadas, são quase sempre inúteis e, se disponíveis em grande quantidade, certamente nocivas. Quando notamos as profundas cicatrizes que se escondem por trás de um grande caráter, temos de nos render a esta beleza tardia, mas perene, que delas é proveniente. Parece irracional ansiar por agruras; contudo, quando se volta os olhos ao passado, há de se reconhecer que nada como elas é capaz de transformar para melhor.
Categoria: Notas
Se é necessário que o escritor estabeleça…
Se é necessário que o escritor estabeleça um elo com seu tempo, ele não pode fazê-lo senão o vivendo. É inevitável… por mais que se tente, não se pode sentir um tempo passado ou futuro como o sentiram e o sentirão aqueles que nele viveram ou hão de viver. Por isso, só se pode ter de um tempo longínquo uma noção, e uma noção inteiramente dependente do grau com que o escritor o sentiu na carne para então nos descrever. Desta forma, viver o próprio tempo pode ser pelo escritor encarado como uma missão em benefício daqueles que ainda não nasceram, e portanto é perfeitamente possível, e até necessário, que ele encontre sentido naquilo que pareça desagradável e importuno: só assim ele poderá ser útil e imprescindível àqueles que virão.
Definições imprecisas
Salvo engano, Freud disse da misantropia “um estado psíquico”; no dicionário, encontramos uma chocha “falta de sociabilidade”. Ambas as definições são vistosamente imprecisas, por esconderem o caráter essencialmente ativo da misantropia. Por isso, é preciso que um especialista refaça o trabalho malfeito e nos ilumine sobre o sentido deste vocábulo tão especial. Muito obrigado. A misantropia é um esporte. Nele, duas equipes se confrontam: a do misantropo, constituída por ele mesmo; e a da humanidade, constituída por todas as outras pessoas. O objetivo do misantropo é evitar a humanidade, e o objetivo da humanidade é importuná-lo. O diferencial deste esporte é que seu praticante pratica-o o tempo inteiro, e cada lance de sua vida pode ser considerado uma jogada. Tomemos o futebol como referência. Se o misantropo, por exemplo, ao perceber a ameaça de uma abordagem na rua, saca do bolso o celular e finge atender uma ligação, ou simula estar concentrado para não tomar parte em uma conversação estúpida à sua volta, ele efetua algo como um drible. Se falta a qualquer ocasião social, é como se marcasse um gol. Fernando Pessoa fingiu-se doente para faltar a um Natal em família: gol honesto. Um belo gol seria o que fez Karl Kraus na ocasião em que, perguntado num trem se seria ele o célebre Karl Kraus, respondeu o desconhecido com um rotundo “não”. Thoreau, mudando-se para uma floresta para viver entre animais selvagens, anotou um golaço semelhante ao de Maradona contra a Inglaterra na Copa do Mundo de 1986. E por aí vai… Com esses poucos exemplos, já se percebe que a misantropia nada tem de passiva ou de passageira, sendo muito menos um “estado psíquico” que uma prática diária e maravilhosamente estimulante. Muito obrigado.
Se algo é publicado, será lido
Se algo é publicado, será lido: é esta uma realidade inevitável. Mas é bom pensar que tal nunca ocorrerá, pois assim se pode criar com tranquilidade e independência. Há algo de belo e solene neste silêncio que acompanha a criação e, o mais das vezes, a recepção de uma obra. É um silêncio ilusório, mas extremamente estimulante, e se fez presente na maior parte das grandes obras já concebidas. Se pensar no natural rompimento deste encanto, o artista julgará melhor jamais publicar nada, e por isso não deve fazê-lo: deve permitir-se iludir, e aproveitar a calmaria como se fosse garantida e eterna.