A revolta de Proudhon

Outra de Proudhon:

L’autorité ne fut pas plutôt inaugurée dans le monde qu’elle devint l’objet de la compétition universelle. Autorité, Gouvernement, Pouvoir, Etat — ces mots désignent tous la même chose —, chacun y vit le moyen d’opprimer et d’exploiter ses semblables. Absolutistes, doctrinaires, démagogues et socialistes tournèrent incessamment leurs regards vers l’autorité, comme vers leur pôle unique.

A revolta de Proudhon, a veemência e o ardor que lhe saltam como faíscas das linhas é assaz compreensível: é muito simples imaginar uma sociedade que não se resuma em opressores e oprimidos; contudo, é espantoso constatar que a opressão, seja com quais vestes se apresente, não faz senão consolidar-se moldando-se às propensões vigentes. E ver que, ainda que esteja o óbvio escancaradamente exposto, a maioria não o enxerga, tomando parte ativa na perpetuação daquilo que lhe contraria frontalmente não somente os interesses, mas a própria dignidade.

Ser governado

De Proudhon:

Être GOUVERNÉ, c’est être gardé à vue, inspecté, espionné, dirigé, légiféré, réglementé, parqué, endoctriné, prêché, contrôlé, estimé, apprécié, censuré, commandé, par des êtres qui n’ont ni le titre, ni la science, ni la vertu… Être GOUVERNÉ, c’est être, à chaque opération, à chaque transaction, à chaque mouvement, noté, enregistré, recensé, tarifé, timbré, toisé, coté, cotisé, patenté, licencié, autorisé, apostillé, admonesté, empêché, réformé, redressé, corrigé. C’est, sous prétexte d’utilité publique, et au nom de l’intérêt général, être mis à contribution, exercé, rançonné, exploité, monopolisé, concussionné, pressuré, mystifié, volé ; puis, à la moindre résistance, au premier mot de plainte, réprimé, amendé, vilipendé, vexé, traqué, houspillé, assommé, désarmé, garrotté, emprisonné, fusillé, mitraillé, jugé, condamné, déporté, sacrifié, vendu, trahi et, pour comble, joué, berné, outragé, déshonoré. Voilà le gouvernement, voilà sa justice, voilà sa morale !

A eloquência de Proudhon é destas que convence um monge a comprar um fuzil. A meticulosidade na exposição do óbvio não pode admitir senão o riso como resposta. Que dizer? Como refutá-lo? Proudhon, que não era um homem comum, tinha olhos para enxergar a exploração tirânica que se tornou normalidade social, tinha olhos para ver o estado vexatório de submissão em que o cidadão comum se permitiu viver. E então? Perdura o mito, ora gravado na pedra, de que é impreterível que todos assintam em ser ovelhas e que uns poucos sejam lobos. É assim e só assim que a “sociedade” pode funcionar. Um milímetro fora disso é o caos e a desordem: todos perdem e, portanto, o melhor é aceitar em silêncio a necessidade de que uns mandem e outros obedeçam.

Os verdadeiros e os artificiais

Diz Guyau, no prefácio de Vers d’un philosophe:

Il y a deux écoles en poésie : l’une recherche la vérité de la pensée, la sincérité de l’émotion, le naturel et la fidélité parfaite de l’expression, qui font qu’au lieu d’un auteur ” on trouve un homme ” : pour cette école, pas de poésie possible sans une idée et un sentiment qui soient vraiment pensés et sentis. Pour d’autres, au contraire, la vérité du fond et la valeur des idées sont chose accessoire dans la poésie : le tissu brillant de ses fictions n’a rien de commun ni avec la philosophie ni avec la science ; c’est un jeu d’imagination et de style, un ravissant mensonge dont personne ne doit être dupe, surtout le poète.

Tal divisão, que parece mais precisa que as tradicionais escolas literárias, e que pode ser facilmente estendida às outras artes, resume os artistas em dois grupos: os verdadeiros e os artificiais. A única ressalva possível consiste em dizer que, em muitos casos, a emoção imaginada pode ser uma emoção sentida, isto é, a imaginação, por fortíssima, vale de experiência. De resto, é admitir que há aqueles que fazem arte por uma necessidade expressiva, aqueles aos quais uma vida sem arte é absolutamente injustificada, absolutamente impossível; e há aqueles aos quais a arte é um divertimento e uma exibição. Isso basta.

Inovações artísticas

Estou aqui pensando: chegou o dia em que o ritmo, após tanto tempo utilizado na poesia, deixou de ser belo; e belo passou a ser fazer poesia sem ritmo. Curiosamente, sou assaltado por uma lembrança engraçadíssima. Certa vez, fui à fronteira com o Paraguai e lá estava para assistir ao “espetáculo cultural” mais renomado da região. Tal espetáculo não era senão uma tentativa de evidenciar mesclando as tradições musicais dos países vizinhos. Foi uma apresentação, embora caríssima, redondamente ridícula; mas houve um momento que, pelo grotesco impensável, fez valer o preço do ingresso. No palco, subiu um sujeito com vestes temáticas paraguaias carregando uma harpa. Uma harpa: o mais imponente dos instrumentos musicais. Houve um silêncio, ou melhor, o silêncio do imponentíssimo instrumento congelou a plateia. Obviamente, estava esta na expectativa de que o homem fosse tocar a harpa. Porém, após bater exatamente duas notas, eis que o sujeito, ao som de um playback, toma a harpa como dama e começa a bailar: rodopia, balança-a de um lado para o outro e ousa atirá-la para o alto. Neste momento, já estava a plateia animadíssima batendo palmas. Eu, é verdade, não controlava as gargalhadas, que se perdiam entre as palmas e o playback. Mas lá estava a harpa, enorme, com o seu quê de divino, bela como se fosse feita de ouro, rodopiando nas mãos de um palhaço para o aplauso de algumas dezenas de imbecis.