Uma ilusão, sempre que destruída, origina um insulto. É por isso que o pessimismo, exterminador de ilusões por excelência, foi e será sempre insultado. Uma pessoa normal não pode defrontá-lo sem revolta, sem que se sinta agredida e injustamente espoliada. E não pode deixar de taxá-lo não como desagradável, mas como criminoso. Se não consegue refutá-lo com a lógica, que seja com a violência! Todo pessimista tem de estar ciente do efeito destrutivo de suas palavras e da reação que, em maior ou menor medida, naturalmente provocará. E então deve medir o quão forte é-lhe a necessidade de expressar-se perante as represálias que sofrerá. Racionalmente, é provável que conclua ser a primeira desnecessária; mas será infeliz se julgar-se obrigado a pagar nesta vida a dívida que contraiu com os inimigos das multidões.
Categoria: Notas
Concessões ao mundo prático
É irritante, mas talvez simultaneamente necessário, o fazer concessões ao mundo prático na criação literária. É natural que haja no intelectual um impulso de isolar-se em abstrações tão prazerosas quanto são desagradáveis as intromissões da banalidade cotidiana em sua obra. Contudo, estas que parecem manchas constituem um elo necessário com a realidade que permite que a literatura exerça o seu papel engrandecedor. Isolar-se no plano intelectual é misturar-se aos filósofos cujas obras ociosas jamais serviram de conselho a alguém.
É muito difícil julgar o artista inconsequente
É muito difícil julgar o artista inconsequente, que tem no agora sua única realidade e adota uma postura financeiramente irresponsável. Admita-se ou não, a prudência financeira é uma aposta. A frugalidade, a parcimônia, o construir lentamente um pequeno patrimônio é apostar que haverá futuro e que, nele, será possível dedicar-se inteiramente à arte, ainda que dela não se extraia um tostão. A verdade é que, em hipótese nenhuma, o artista pode permitir-se desperdiçar o agora, e deve trabalhar sempre as melhores ideias de que dispõe, ainda que por um tempo reduzido, muito longe do ideal; pois, assim como o futuro é uma possibilidade, há também a possibilidade de que jamais usufrua das tais condições “ideais”.
Parecem quase criminosas…
Um século depois, parecem quase criminosas as insistentes recomendações da senhora Maria Madalena ao seu filho irresponsável, pedindo-lhe que encontrasse um emprego e dedicasse o grosso de seus dias a trabalhar pelo próprio sustento. Aí está o prudentíssimo senso comum visualizado em perspectiva! E ficamos a imaginar que seria de Fernando Pessoa, cedesse à prudência materna e agisse como uma pessoa normal. É verdade, é verdade: Pessoa afundou-se em razão de uma burrice extraordinária; e tinha de pagá-lo. Mas como? Como forçar um homem desta estirpe a desperdiçar-se em banalidades? Um homem assim afirma-se, sempre, no momento em que contraria aquilo que lhe é conveniente, no momento em que se distancia terminantemente daquilo que lhe é esperado. É-lhe preferível viver como um caloteiro ou, antes, é-lhe preferível morrer a destruir-lhe o gênio pela conformação à normalidade.