É realmente interessante acompanhar palestras de charlatões espirituais. Hoje, mais do que nunca, o mundo é-lhes propício. Então ficamos a admirar como uma cabeça calva, uns cabelos brancos e uma face enrugada impõem respeito, simbolizando a mais alta sabedoria e a mais séria meditação. Daí que somos como impelidos pelo bom senso a escutar em silêncio verdades as quais nossa experiência não teve a gentileza de nos apresentar. E vemos como fazem sentido, como somos boas bestas e como, após conhecê-las, devemos passar a viver. É uma pena que tal encanto não perdure…
Categoria: Notas
A língua carece de uma obra
Notando a confusão terrível em que se encontram, ainda hoje, alguns conceitos da versificação portuguesa, como a “cesura” e o “encadeamento”, sendo a primeira utilizada para exprimir desde tonicidade à divisão silábica, incluindo usos mais criativos como “o repouso da voz sobre uma sílaba”, e a segunda para expressar tanto o chamado cavalgamento como a repetição de fonemas, frases ou até versos inteiros, concluímos que a língua carece de uma obra que seja capaz de esclarecer tais e outros conceitos. Os tratados de Castilho, Bilac e Guimarães Passos são incompletos por não dedicarem uma linha ao ritmo — curiosamente, o que há de mais importante na poesia; — outros há que, embora devam ser reconhecidos pela intenção, lamentavelmente não compreenderam ou compreenderam incorretamente muitos aspectos básicos da poesia. Duque-Estrada e Bandeira, grandes versificadores, produziram obras de bolso, pouco abrangentes. Said Ali brilhantemente expôs uma interpretação nova à versificação portuguesa, mas sua obra não é capaz de instruir, do zero, um iniciante, posto que se escusa a estender-se em muitos conceitos que ao autor pareciam óbvios. Disso tudo parece a língua carecer não de um tratado com regras, mas de uma obra que simplesmente clarifique conceitos básicos e reúna o que há de positivo desde Castilho, sendo um apoio seguro para aqueles que desejam fazer versos. Como é possível não havê-la?
Sempre desagradável…
É curioso como o processo de escrita parece sempre desagradável ou, no mínimo, expõe sobremaneira os seus piores aspectos. Começa-se uma obra em prosa, e a mente se recorda de como a poesia é mais bela; esboça-se um volume de versos, e a mente parece ter saudade da produtividade da prosa. Não há escapatória: crie-se o que for, será o processo sempre uma luta e abandoná-lo sempre mais fácil. Por isso, causa uma certa inveja quando observamos aqueles que brincam fazendo arte ou fazem-na pensando nas cifras, na fama, nos leitores. Embora produzam obras medíocres, livram-se desta insuportável angústia e deste desejo terrível de aniquilação.
Estupor perante a destruição
Às vezes parece vivermos numa época não de decadência, mas de estupor perante a destruição cultural já consumada. É como se estivéssemos em meio a escombros, perplexos e sem ação. Foi-se o que havia de seguro, de estável, de “certo”, foi-se o norte e o bom; as palavras foram esvaziadas de sentido e os critérios desconstruídos, ao mesmo tempo que o subversivo foi colocado num pedestal. Culturalmente, destacam-se despautérios que, após um instante de brilho, são logo esquecidos e substituídos por outros; e nessa sucessão em que nada perdura, senão o contrassenso, parece não haver nada de firme para se apoiar.