Uma silabada em latim

Se procede o asseverado por Gilberto Freyre que, há pouco mais de um século, neste mesmíssimo Brasil, uma silabada em latim ou um erro de pronúncia em francês “podia ser a desgraça de um homem com pretensões a culto”, será difícil encontrar na história da humanidade uma tragédia intelectual de mesmo calibre da que se passou em solo verde-amarelo. Em parte, poder-se-ia justificá-lo pela atual “inutilidade” de se ter uma pronúncia francesa correta, “inutilidade” ainda maior para o latim, estudado exclusivamente para ler. Contudo, para não discorrer sobre o “inútil”, salta aos olhos o sepultamento absoluto desta que fora uma tradição aos doutos, ora instruídos de forma inteiramente distinta. Hoje, impressiona a mera constatação que tal tradição existiu, que houve o tempo em que brasileiros aprendiam latim estimulados pela palmatória e formavam-se fluentes em francês. É ver qual será a compensação desta notável falência, já comentada nestas notas…

A “intuição” de Jung

De todas as funções psicológicas fundamentais junguianas, a “intuição” é a mais interessante e desafiadora para aqueles que buscam compreendê-las em profundidade. O próprio indivíduo no qual este mecanismo perceptivo apresenta-se acentuado, caso busque interpretá-lo, ver-se-á em grande dificuldade, posto que interpretá-lo seria em suma racionalizá-lo, e não se racionaliza o irracional. Demais, se comparamo-lo com a outra função irracional segundo a classificação de Jung, a “sensação”, esta parece sem dúvida mais compreensível e menos abstrusa para aqueles que a não possuem saliente, porquanto ativada através de estímulos mais facilmente visíveis e palpáveis. Como a “sensação”, é a “intuição” espontânea; mas embora, como diz Jung, seja uma faculdade exclusivamente perceptiva, trabalhando em conjunto com as funções de julgamento induz um parecer daquilo que percebe. Sai este, portanto, automático e calcado no inexplicável. O que sobretudo impressiona é o sair frequentemente carregado de certeza, uma certeza que desafia a lógica, posto calcada numa percepção irracional. E ver que esse mecanismo prova-se eficaz repetidas vezes, prova-se confiável a ponto de não somente rivalizar, mas invalidar conclusões alcançadas por outras faculdades — faculdades aparentemente mais lógicas — naqueles que a possuem pronunciada. Notável…

Embora seja interessantíssimo constatar…

Embora seja interessantíssimo constatar similaridades na abordagem de diferentes tradições do pensamento ao problema central da experiência humana, e embora elas possam efetivamente instigarem o despertar da consciência, não errará quem disser que todos os livros já escritos são insuficientes para que o indivíduo complete-se nesta terra, quer dizer, são eles inúteis a menos que estimulem a ação. Por isso este problema, que já rendeu linhas infinitas, ficará, a nível individual, sempre por resolver, a despeito da qualidade do manual utilizado. O espírito que desperta ou, melhor dizendo, o despertar, resume-se à constatação de uma obra por fazer, uma obra pessoal e intransferível, sem a qual a própria existência parece esvaziada de sentido. Portanto são muitas as vias que conduzem a este que seja talvez o momento capital de uma vida, mas os caminhos são inúteis, senão quando justificados pelo ato de percorrê-los.

O mecanismo psicológico precursor das desilusões…

O mecanismo psicológico precursor das desilusões é uma das faculdades mentais mais interessantes que se tem notícia. Manifesta-se ele como uma necessidade, uma tendência natural inconsciente de projetar idealizações em entes e situações reais. Nas mentes que o experimentam, toda a atividade mental consciente parece propensa a descolar-se do concreto e mesclar-se espontaneamente com tonalidades subjetivas e fantasiosas, criando como uma realidade paralela em que a experiência é intensificada e apresenta-se em aspecto ideal. Freud, é claro, classificou como doença mental o pouco que entendeu deste mecanismo. Mas se, por um lado, concorre ele a acentuar, senão produzir futuros contrastes desagradáveis entre expectativa e realidade, convém notar que a criatividade é inteiramente dependente desta capacidade de atribuir qualidades fantásticas à experiência concreta. Desde o poeta que idealiza a mulher amada ao engenheiro que cria em mente o impossível, todos eles têm a inventividade, e portanto o próprio distintivo, originária desta mesmíssima faculdade mental.