“O que dá ao homem um mínimo de unidade interior…”

Há razão quando Nelson diz que “o que dá ao homem um mínimo de unidade interior é a soma de suas obsessões”. Com o tempo, vão elas se extremando e como que se firmando no espírito até um ponto em que já se não pode demovê-las. Tomado em conjunto, é o espírito sintetizado por um misto de suas manifestações mais frequentes e mais intensas, qualidades correntes nas obsessões. A verdade é que há inclinações das quais, mesmo que tente, o espírito não se desvia, como se algo forçasse-o repetidas vezes a assumir aquilo que lhe é inato, a usar adequadamente as lentes que possui. Então vemos que o mesmo que para alguns é irrelevante e dispensável exerce noutros atração irresistível. Obsessões… a nível individual, o melhor é logo aceitá-las.

Os agitadores políticos de épocas passadas

É um fato notável que, para que saibamos quem foram os agitadores políticos de épocas passadas, tenhamos de recorrer a obras que não as de história. São raríssimas as exceções a essa regra, e o mais das vezes aplicam-se aos piores exemplos da classe. Triste destino! E ver que a história não concede uma linha, uma mísera menção ao grosso destes que em vida inspiram admirações tão exaltadas, influindo diretamente na dita opinião pública e passando uma falsa impressão de importância — que a história trata de desmentir. Disto se tira uma única conclusão…

Após entranhado o costume do período conciso…

Após entranhado o costume do período conciso, direto e objetivo, tão em voga nestes dias, que o têm como quase exigência do estilo, é um prazer o mergulhar esporádico na passada de outros tempos, lenta, cadenciada, parecendo evidenciar que não se faz arte com pressa, que a atenção pede detalhes, adiciona nuances, singulariza enquanto se vai estendendo. Imergir neste vagar é como que fugir da banalidade moderna, e a medida que os períodos progridem ficamos com a sensação de uma profundidade que escapa a este tempo, que perdeu-se em prioridades fúteis e transformou-se em inimigo daquele estado tranquilo que acentua a tendência humana para a contemplação.

Se o verso alexandrino clássico, exigindo a sexta sílaba…

Se o verso alexandrino clássico, exigindo a sexta sílaba sempre aguda ou grave em palavra que se elida na seguinte, visava, com tais regras, construir uma unidade dodecassílaba, parece-me que em nada deixa a desejar o alexandrino português que se valha da abundância de palavras esdrúxulas do idioma, ocasionalmente inserindo-as com a tônica na sexta sílaba e elidindo-as na palavra seguinte. Muito pelo contrário, parece-me haver um quê de novidade nesta construção não encontrada em versos franceses. Bilac e Guimarães Passos, dizendo que está vetado ao alexandrino “clássico, o verdadeiro, o legítimo” o vocábulo esdrúxulo com tônica na sexta sílaba, talvez não se atentaram para o fato de que tal não ocorre em poetas franceses, tidos como introdutores deste metro, pelo simples fato de que a prosódia francesa não admite tais palavras, acentuando sempre a última sílaba não muda de seus vocábulos. Não vejo por que o poeta português deva adaptar seus versos para esta que mais parece uma limitação da língua francesa.