Vou eu, concentrado, batendo umas linhas inúteis, quando sou bruscamente interrompido por um urubu-de-cabeça-preta imenso, que quase me invade a cozinha e, em seguida, pousa em meu quintal. Fico a admirá-lo, imponente, pensando que jamais havia visto, de perto, um destes tão grande. Após alguns minutos, retorno à minha mesa e, antes que voltasse a escrever, pousa o urubu num poste, diante de minha janela. Penso sorrindo no verso de Augusto: “Ah! Um urubu pousou na minha sorte!”. Uma semana depois, pela manhã, vou eu compondo alguns versos amargos, quando novamente sou interrompido: um novo urubu, de mesma espécie, pousa-me no quintal reiterando o fato até então inédito. Vou observá-lo: noto que é um pouco menor que o primeiro, embora possa facilmente engolir um pombo numa bocada. Desta vez, detenho-me um pouco mais analisando-o. Parece ele não me notar enquanto reparo que, a despeito da crença popular, nada nele parece-me aventar mau agouro. Vou examinando, mais uma vez, o caráter majestoso desta ave, quando ela enfim alça voo. Num minuto, já está planando em altitude inalcançável para pássaros comuns, voando a seu modo todo particular, de asas abertas e estáticas o mais do tempo e subindo impulsionada por correntes, em técnica que outros pássaros nem sonham em dominar. Bonito! Perco-o de vista, e retorno inspirado à minha composição.
Categoria: Notas
A flexibilidade sintática latina
O estudante resistente o bastante para vencer as terríveis dificuldades oferecidas pelo latim terá como prêmio o acesso ilimitado à verdadeira beleza que é a flexibilidade sintática latina, tão intrincada para o cérebro educado pelas línguas românicas modernas. Este que é um dos mais notáveis distintivos do português perante outras línguas atuais, fazendo com que estas pareçam duras e prosaicas, no latim é como que o sumo recurso do mestre, cujo manejo denuncia o próprio gênio daquele que discursa. Apreciar a variedade sintática das construções latinas é, em verdade, apreciar o grau de criatividade com que o autor articula a linguagem, variegando e surpreendendo. Sem dúvida, é um prazer que justifica o esforço de anos para aprender o latim.
Não há dúvida que foi e tem sido deletério…
Não há dúvida que foi e tem sido deletério para a língua portuguesa o movimento simultâneo, por parte da intelectualidade, de aproximação da língua inglesa e distanciamento do latim e do francês. O fato é patente e deu-se menos por escolha que por necessidade. Contudo, hoje, é possível constatar quanto se perdeu. Se refletimos sobre a condenação veemente que fizeram gramáticos de outrora a respeito dos galicismos que invadiam a língua portuguesa, ficamos com a falsa impressão de que o francês estava a contaminar o vernáculo, quando, em verdade, teve efeito majoritariamente enriquecedor, saltando aos olhos naqueles que talvez sejam os maiores prosadores do idioma: Eça, Camilo e Machado. A influência francesa, pois, ora inexistente, mais fez conferindo beleza ao discurso português. Quanto ao latim, enxotado das escolas e universidades, o lamento é ainda maior. É escusado listar o que perde o falante português abdicando do estudo da língua latina, posto que inutilmente muitos já o fizeram, como Napoleão Mendes de Almeida. Ocorre que o intelectual médio, hoje, é formado com vistosas deficiências não somente vernaculares, como cognitivas: raciocina pior por dificuldade na articulação do raciocínio, por incapacidade de ordenar o discurso — algo que poderia ser prevenido pelo estudo do latim. E se nos voltamos para a perda estética, ainda mais considerando ser o inglês o substituto da língua latina, a situação é ainda mais lastimável. Que fazer?
Em algum ponto da história, a imprensa descobriu…
Em algum ponto da história, a imprensa descobriu que poderia vender verdades — e o quanto poderia lucrar com fazê-lo. Então, atinando-se para a nova potencialidade, assumiu-a com gosto e, em obra de décadas, gradativamente intensificando-a, posto que o intensificá-la provou-se mais e mais lucrativo, transformou-se numa ferramenta de manipulação sistemática. Por um tempo, nada pareceu capaz de fazer-lhe frente, minorar-lhe o poder soberano; e iludiu-se que seria sempre assim. O que se deu no ocidente, pois, de forma intempestiva e notavelmente no Brasil, é algo simplesmente delicioso de observar: todo esse império canalha, esse conglomerado da mentira encontra-se, agora, alvejado pela fúria das mesmas massas que manipulou, e parece condenado a ruir. É um privilégio notá-lo em tempo real! E quem poderia prever? Após muitos anos mentindo, mentindo e mentindo, ao ponto de fazê-lo com descaramento espantoso, extrapolando todos os limites e insultando a inteligência daquele que enganava, alentou contra si uma reação violentíssima que não avisou o momento de estourar. É verdade, é verdade: ainda é cedo para arriscar os capítulos finais desta história; mas, por ora, não há como conter o esticar do mesmo sorriso que vivia na face de Voltaire.