The development of personality, de Carl Jung

Jung é realmente admirável! O esforço que empreendeu na tentativa de integrar os elementos irracionais da psique humana em sua psicologia analítica, ciente das críticas que receberia da comunidade científica, é digno do maior apreço. Jung não somente recusou-se a negar ou esconder o que via, como buscou sinceramente explicações para problemas extremamente intrincados, expondo-as ainda que a tatear na escuridão. A visão de “personalidade” que expõe neste paper traduzido como The development of personality mostra uma argúcia raríssima em filhos da academia e afronta a noção de que o homem limita-se a uma construção biológico-social. A personalidade não pode ser ensinada ou generalizada, não manifesta-se espontaneamente e consiste num ato de coragem contra o comportamento de rebanho. É um distintivo, um destino e uma maldição. É uma deliberação consciente e individual, que exige um compromisso consigo mesmo e que jamais se dá por necessidade. É, pois, uma escolha, com consequências insuportáveis à maioria e que altera por completo o paradigma comportamental daquele que a efetiva. Jung, talvez o maior dos psiquiatras modernos, foi especialmente grande por não acomodar-se no conforto dos manuais de psicologia e não ceder ao postulado delirante de que a mente humana obedece a um funcionamento universal.

A personalidade só floresce no deserto

De Nietzsche:

Estando entre muitos, vivo como muitos e não penso como eu; após algum tempo, é como se me quisessem banir de mim mesmo e roubar-me a alma — e aborreço-me com todos e receio a todos. Então o deserto me é necessário, para ficar novamente bom.

A personalidade só floresce no deserto e não resiste a muito tempo de contato coletivo, o qual não faz senão estrangulá-la. É como uma tortura ao indivíduo consciente de si, habituado a viver como pede-lhe o íntimo, fazendo da própria vida uma realização interior o encontrar-se coagido pelo meio, que o impele a negar-se posto que representa a antítese da singularidade que o define. Prezando-se, não deve ele permitir-se mais que doses homeopáticas de contato com os homens, sempre atento para que estas não lhe contaminem a rotina e sabendo que, afinal, o que mais tem a ganhar com fazê-lo é o topar-se repetidamente com os motivos que justificam e exigem a afirmação do próprio voto.

É realmente prazeroso encontrar em autores conclusões…

É realmente prazeroso encontrar em autores conclusões a que chegamos previamente e por conta própria. Nada, porém, se compara a encontrá-las contrárias às nossas quando, se não refutam-nos por completo, mostram-se igualmente razoáveis. No primeiro caso, não nos alegramos senão por vaidade; no segundo, efetivamente crescemos. Há de se admitir, porém, que é este um prazer raro, dificilmente inato, e mais frequentemente fruto de um esforço contínuo, de uma educação da mente para que aceite o contraditório e compreenda a realidade como ambígua e multifacetada — algo que pouquíssimos espíritos se dispõem a fazer.

Em português, a beleza e precisão do discurso…

Em português, a beleza e precisão do discurso, seja em prosa ou em verso, dá-se principalmente pela boa escolha dos verbos. Estes, bem selecionados, dispensam advérbios e evitam perífrases, só justificáveis quando pede a cadência. Impressiona notar a quantidade de verbos do idioma, algo que obriga um estudo apurado e constante ao artista sério, que só os dominará talvez após longos anos de esforço. Flaubert, se escrevesse em português, provavelmente dedicaria a eles, e não aos substantivos, a sua obsessão.