O casamento é a morte da poesia lírico-amorosa

Versos de Byron:

There’s doubtless something in domestic doings
Which forms, in fact, true Love’s antithesis;
Romances paint at full length people’s wooings,
But only give a bust of marriages;
For no one cares for matrimonial cooings,
There’s nothing wrong in a connubial kiss:
Think you, if Laura had been Petrarch’s wife,
He would have written sonnets all his life?

Há verdades demasiado desagradáveis e que merecidamente acabam evitadas. Não há negar: o casamento é a morte da poesia lírico-amorosa. Ou, antes, acaba esta no instante em que o desejo é consumado. Para existir, é preciso que o poeta lamente não possuir aquilo que cobice, isto é, é preciso que algo entrave a realização de sua fantasia. Os versos brotarão somente enquanto o objeto idealizado estiver indisponível, e por isso mesmo permitir-se pintado com feitio extraordinário, algo que jamais ocorrerá caso se mostre uma entidade real. E aqui vamos nós: o amor de Petrarca pariu versos porquanto não correspondido, — conclusão óbvia que dispensa sustentação biográfica, — como ocorreu e ocorre com todos os seus pares. Digam quanto quiserem, mas esta é a verdade: o poeta capaz de realizar a própria vontade dificilmente fará versos de “amor”.

Embora historicamente o pessimismo possua…

Embora historicamente o pessimismo possua incrível taxa de acerto, não há negar que falhe e seja incapaz de enxergar pontos de inflexão importantíssimos. Para dizer como Carlyle, a história evidencia um processo em que as mentiras são repetidamente sepultadas. Dirá o pessimista, e talvez com acerto, que lhes tomarão o lugar novas mentiras. Mas não se pode negar que algo haja de benéfico no processo, isto é, que uma mentira, perdendo a força, abra espaço para que algo novo floresça, algo antes impedido pela limitadora e coerciva ação do falso. Com isso, novas possibilidades; ganha o homem, e ganha a história. Por outro lado, o tempo realmente parece induzir um equilíbrio entre empolgação e desencanto. O prudente, portanto, é deixar de lado os julgamentos extremados.

Os demônios efetivou-se em obra-prima…

Seria interessante analisar como Os demônios efetivou-se em obra-prima apesar de ter sido concebida por Dostoiévski com fins assumidamente panfletários. É uma verdadeira proeza que tal se tenha passado, posto que o destino mais provável de uma obra assim motivada é a lata de lixo. Impressiona não somente a capacidade de Dostoiévski em dar abrangência ao episódio, mas o senso de urgência e importância só possível em um autêntico visionário. A obra, pois, acabou fortalecida pelas mesmas qualidades que ordinariamente emporcalham. Mais que uma trama real, complexa, original e profunda, saiu ela como denúncia e profecia, sendo igualmente valiosa a filósofos, psicólogos e historiadores. Raríssimas as obras das quais se pode dizer parecido.

É muito difícil, hoje, não simpatizar…

É muito difícil, hoje, não simpatizar com aqueles alvejados pela fúria dos imbecis. É o mesmo sentimento inspirado por uma ação covarde: toma-se, instintivamente, partido do lado mais fraco. E ver todos esses linchamentos públicos, toda essa infâmia raivosa que arrasa reputações e carreiras da noite para o dia, e sempre insaciável, sempre à procura do próximo alvo, é algo que suscita em mesma medida repugnância e revolta. Quem permitiu que tais estúpidos tivessem voz? Ainda teoricamente, são demasiado óbvios os resultados da demagogia miserável de Rousseau; mas observá-los na prática, efetivos e aclamados, não pode senão conduzir a uma misantropia total.