A impressão que se fica após a leitura…

A impressão que se fica após a leitura de vários romances náuticos é que o homem, para embarcar num veleiro, tinha de sofrer ao menos um distúrbio mental grave. É divertidíssimo constatar quão absurdas nos parecem, hoje, as navegações do passado, em que as embarcações eram como joguetes expostos à fúria marítima e os viajantes, acossados pelos terrores das procelas, punham-se de joelhos diante da sorte. Essa exposição voluntária ao desconhecido parece-nos irracional, embora expresse uma coragem que hoje carecemos. Mas o embate do homem com o irracional, o poderoso e incontrolável continua existindo; embora já não se tire lições como antes e nem se saia com a mesma dignidade.

Mentes noturnas

Cioran, Antero, Kafka… todos dotados de uma mente noturna, isto é, uma mente que, contrapondo-se aos hábitos corporais diurnos, escolhe a noite para pôr-se em atividade intensa. Grande parte das noites, pois, uma verdadeira tortura, um conflito incessante que só termina quando a luz já invade a janela do quarto. O fatigado corpo pedindo descanso, e a mente tendo na quietude da madrugada o horário perfeito para trabalhar. Ideias a estourar como rojões, raciocínios que desenvolvem-se uns sobre os outros, cenas, julgamentos, aflições, planos, expectativas, tudo isso rebentando, sugando atenção quando a vontade é anulá-los todos. Então, já acostumado, o espírito passa a chamar de noites boas aquelas em que o dormir é como um semissono, — o máximo que consegue atingir, — um estado em que a falação mental confunde-se num meio-termo entre sonho e raciocínio, já automatizado por um encadeamento inconsciente e só interrompido por despertares espaçados, nos quais um lampejo consciente questiona o grau da própria lucidez. E desta rotina aparentemente terrível, muitos e muitos frutos, soluções que jamais se dariam num estado plenamente desperto, ideias que, se não oriundas do recanto mais fundo da mente, parecem colocadas pelas mãos de um espírito superior. Muito bem, muito bem: é possível aprender a gostar de noites assim — só não é possível, para uma mente como essa, o bom humor pelas manhãs.

Crianças iludidas pelo fútil

Para não dizer inexistentes, é no mínimo raro encontrar nesta dita poesia lírico-amorosa versos em que uma experiência real é cantada, algo verdadeiramente alto e belo como se vê em Dante. Em contrapartida, mude-se as línguas e as épocas, encontra-se sempre os mesmíssimos elementos que enfastiam o leitor sedento por alguma elevação. Claro, claro: há exceções; mas a compaixão que o maior número destes poetas desperta nada tem que ver com os versos que fizeram. Lamentavelmente, parecem eles crianças iludidas pelo fútil, que viveram alimentando-se desta vontade nunca concretizada que a maturidade faria dispersar. A maturidade, isto é, a sabedoria ou a experiência. Ambas parecem ter-lhes faltado, do contrário teriam encontrado algo mais nobre para direcionar-lhes a atenção.

A intolerância aos pequenos erros…

A intolerância aos pequenos erros e pequenos defeitos conduz necessariamente ao isolamento. O mundo, se levado muito a sério, trava guerra declarada contra o espírito intransigente. Tal guerra não objetiva senão deixar claro: aceita-se o mundo como é, ou esmurra-se eternamente paredes. E as decepções que se empilham, as expectativas que baldam seguidamente, a perfeição que se mostra sempre fantasiosa, tudo isso corrói o espírito e poderia ser evitado. O melhor, sem dúvida, é nada esperar.