Esterilidade e mérito

No Simbolismo, foi a esterilidade vista como virtude e opção artística. Contudo… como dizer? É natural naquele que emprega todo o espírito na arte, que dedica-se integralmente à arte produzi-la em abundância. Fecundidade é, em grande parte, dedicação. Nos simbolistas, não foi caso isolado o desleixar-se, nem o entregar-se à depravação. Meditemos: como é possível prezar o artista que não preza a si mesmo e destrói-se em hábitos baixíssimos? o artista que lhe menospreza o talento e emprega-se majoritariamente em atividades mesquinhas? É verdade: há casos em que a obra fala por si só. Mas o artista estéril se limita: sua obra, ainda que forte, carece de abrangência, multiplicidade — qualidades que provavelmente lhe seriam alcançáveis pelo esforço. De tudo isso, a conclusão: um gênio torna-se aquilo que engendra e, em última instância, a dimensão é-lhe condicionada, também, ao empenho.

A fama nunca deixa de acorrentar e corromper

É desolador constatar que a fama nunca deixa de acorrentar e corromper. Exceções são raríssimas. E a consequência disso é que o sucesso, ainda que merecido, chega para destruir. Vasculha-se o passado e se lhe descobre a carência de ídolos autênticos, ídolos que, ascendendo, mantiveram-se fiéis a si mesmos. E assim encerram biografias descrevendo rascunhos lamentáveis de personalidades que se permitiram ofuscar.

Modelos e identificação

Tenho modelos; modelos escolhidos conscientemente e incorporados à força em minha literatura; modelos que representam, segundo o meu juízo, o que há de esteticamente melhor em todos os gêneros. Mas um modelo é, se muito, uma inspiração, uma influência para uma criação diferente. Não consigo sequer imaginar a sensação de alguém como Baudelaire, que encontrou a própria teoria estética descrita por Poe. Como é possível? Talvez seja, aqui como em tudo, uma questão de sentir algum pertencimento, ser ou não capaz de experimentar uma identificação plena — uma questão, em suma, psicológico-existencial.

Grandes artistas sempre sobrevivem

Pensando friamente, é dúbio o julgamento de Pound de que grandes artistas sempre sobrevivem e sempre sobreviverão. Embora o tempo frequentemente opere correções na fortuna de muitos autores, é difícil concluir que seja ele justiceiro infalível. Basta pensar no número de obras perdidas da Antiguidade — uma objeção assaz contundente. Mas é possível pensar, também, nos artistas jamais contemplados: quantos seriam?… Somos forçados a admitir que a sorte, esta sim, é sempre determinante.