Elementos do humor de qualidade

Estou aqui, como um escritor profissional de piadas, deixando-me levar por meu espírito essencialmente analítico e dissecando os elementos do humor de qualidade. Penso em Voltaire. A ironia, se bem aplicada, não conduz às gargalhadas, mas entrega uma satisfação duradoura, sustentável por um longo intervalo. No caso de Voltaire, obviamente, os efeitos da ironia saem como que secundários a uma postura filosófica que lhe dita o tom da obra. Mas voltemos às piadas: parecem-me o absurdo e o exagero os elementos fundamentais das melhores, e a surpresa como resultado essencial. Aqui, as gargalhadas. O mesmo Voltaire fornece um ótimo exemplo: impossível não lembrar do inesquecível anabatista Jacques, qualificado como “bon”, “honnête” e “charitable” por várias páginas em Candide, cuja aparição sempre trata de evocar bons sentimentos e que, subitamente, ao pedir auxílio a um marinheiro em meio a uma tempestade, é atirado brutalmente ao mar pelo desconhecido. O exagero da violência, o absurdo do ato cruel, repentino e injustificável trazem, naturalmente, a gargalhada plena, mas não pelo simples exagero ou absurdo, e sim pela naturalidade com que ambos são apresentados. Neste detalhe parece-me residir o segredo do melhor humor: na exposição do grotesco como fosse vulgar.

A aparência de monotonia mescla-se a transformações visíveis

O excepcional deste mundo é que a aparência de monotonia mescla-se a transformações visíveis e radicais. A impossibilidade do absoluto, conquanto evidente, camufla-se na falsa morosidade do tempo. A percepção vê-se, sempre, envolta num dilema: incapaz de formular projeções razoáveis, de interpretar precisamente a realidade, ainda assim carece do juízo e opta pelo erro. Tudo em movimento, tudo suscetível a golpes abruptos intempestivamente: a saúde a um triz da doença, a carência da abundância, a apatia da agitação. E o futuro, estranho à lógica, jamais deixando de ceder palco à contingência.

A gratidão é um exercício nobre

Lembro-me do dia em que decidi iniciar estas notas. Como todas as decisões importantes, essa veio-me como uma rajada, tomando-me a mente e forçando a ação imediata. No instante seguinte, a reflexão sobre o que escrever. O consenso: começar pelos agradecimentos. Então escrevi sobre Nelson, Dostoiévski, Swift, Pondé e alguns outros, e não tardou uma semana da decisão à publicação das primeiras notas. Pois bem. Ao iniciado, não vejo postura razoável que não seja a de humildade; é necessário prestar contas àqueles que contribuíram, de alguma forma, à sua iniciação. A gratidão é um exercício nobre e proveitoso, o reconhecimento é uma exigência do caráter. Digo isso para concluir: a faculdade do agradecimento parece-me um belo parâmetro para distinguir aquele que, por esforço voluntário, empenha-se para ser maior do que a própria vaidade.

O vocábulo latrocínio

Procurei, em inglês e francês, a tradução do vocábulo latrocínio. Não encontrei. Curioso, porque acabei entrando numa reflexão linguística. Passam os anos, e os dicionários alargam-se por uma necessidade natural de expressão em todos os idiomas. Novas formas, novas variantes e, também, novas palavras, a teoricamente agregar precisão e fluidez ao discurso, possibilitando que seja melhor expressa a ideia, ou expresso aquilo que antes não era passível de expressão. Latrocínio: a mim vocábulo rotineiro; ao francês e ao inglês, inexistente. Saio à rua e penso: quando o último caso? Olho, naturalmente, aos dois lados, para frente e para trás, então continuo a pensar. Está muito claro: esta única palavra esconde um universo literário só representável na variante brasileira do português.