Amor: ressalto do egoísmo

Em minha limitada e breve experiência, jamais vi nada que se aproximasse à concepção altruísta do amor. Pelo contrário, os exemplos que a vida tratou de me prover sempre evidenciaram o amor como um ressalto do egoísmo. Mais: identifico facilmente o amor quando o vejo convertido em ódio, em processo naturalíssimo, quando o orgulho, ferido, prescinde dos escrúpulos e mostra-se em máximo vigor.

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Liberdade ou escravidão?

Raia a segunda-feira. O sujeito acorda, cedo, e dirige-se o trabalho, onde lhe passa o dia. Torna à sua casa, exausto, onde lhe restam poucas horas antes de dormir. No dia seguinte, repete a rotina, e depois e depois, a esperar no fim do mês um salário. Finais de semana: se o dinheiro sobra — ou falta, — é hora de empregá-lo a obter algum prazer. Passa-se um, dois, vinte anos, e o sujeito permanece na rotina, já ansioso pelo dia em que o Estado lhe pagará as despesas mensais. Pergunto: a liberdade, se em doses homeopáticas, não seria a escravidão? Ou ainda: não se perceber escravo não seria, em essência, patologia cerebral? De qualquer forma, reconheço: é melhor que tudo fique como está, seja pela placidez da rotina, seja pela escassez de antidepressivos no mercado.

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Imprecisão dos textos bíblicos

Há um argumento extremamente irritante na refutação dos textos bíblicos: a precariedade no processo de reconstrução e transmissão dos textos antigos. Ora, se considerarmos que os métodos de transmissão eram precários a ponto de comprometer a autenticidade do que foi escrito — e tivermos o mínimo de coerência, — então teremos de atirar no lixo tudo quanto foi produzido na Antiguidade; logo, estaremos proclamando a falsidade de, para citar um único exemplo, toda a obra de Aristóteles. Creio seja absurdo acreditar na falsidade do que foi escrito  e repassado à luz de milhares de testemunhas ao longo do tempo, em absoluto foco de atenções: para tanto, será forçoso acreditar na ação conjunta de muitos homens de distintas gerações em prol da falsificação. Isso, a mim, não é senão uma ofensa covarde à honrosa iniciativa de tantos ao longo dos séculos a fim de preservar o conhecimento humano; se procedemos desta forma, acabaremos por considerar, rigorosamente, inválida toda a produção cultural que não a da modernidade.

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Amar e ser amado

“Amar e ser amado”: eis o capitalismo aplicado às relações afetivas, dando-nos mostras de seu imenso vigor. Eu poderia dizer: só ama quem não exige nada em troca, ou ama-se justamente por nada esperar. Mas como soaria ultrapassado! Hoje é tudo um intercâmbio: “Gero valor, pois quero logo minha retribuição!”. E é ingênuo achar que as permutas não se apliquem a tudo, que o maior dos amores ou a mais ínfima das convenções se não sumarize numa relação de troca. Para tanto, basta um modesto exame interior…

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