É realmente louvável o esforço de Unamuno…

É realmente louvável o esforço de Unamuno para tentar verbalizar o sentimento que experimenta, talvez descoberto apenas depois de um olhar atento para dentro de si mesmo, de haver uma força indescritível sempre presente nos momentos determinantes de sua vida, nos quais foi preciso decidir. Notá-lo não é tarefa simples, e às vezes só é possível quando o tempo passa, e se desenham no passado os efeitos irreversíveis da decisão. Ainda mais difícil é admiti-lo, posto que as evidências se concentram no nebuloso campo da subjetividade, que rejeita a possibilidade de uma compreensão límpida e racional. O mais duro, contudo, é tentar expressá-lo: as palavras parecem insuficientes, nunca correspondendo ao sentimento real. Fazê-lo é, necessariamente, expor-se ao ridículo; é dizer para ter, em seguida, vontade de desdizer. De tudo quanto se pode dizer sobre este Del sentimiento trágico de la vida, o mais importante é o seguinte: este livro é uma demonstração de coragem.

Para atletas, nada há de mais frustrante…

Para atletas, nada há de mais frustrante que as lesões, sempre inoportunas. O que elas fazem é interromper a evolução e forçar uma pausa, a qual, se não respeitada, tende a agravar ainda mais a situação. Daí que, muitas vezes, o atleta tem de lidar com a perda de seu condicionamento construído a duras penas, enquanto repousa contrariado e observa seus companheiros e adversários progredirem. Pensa em quanto terá de se esforçar para recuperar o nível, sente toda a impotência perante a fisiologia, que lhe determina o tempo de recuperação. Afinal, não vê senão uma escolha para a recuperação plena e o retorno sem limitações: aguardar. A lesão, pois, o ensina a ter paciência. Se consegue superá-la, retorna mais maduro ao esporte: mais consciente, mais cuidadoso, capacitado a maiores provas. E cabe dizer o seguinte: a vida intelectual possui, também, as suas “lesões”.

Certamente, não são de Góngora ou Lope de Vega…

Certamente, não são de Góngora ou Lope de Vega poemas como Salmo I, La hora de Dios, El buitre de Prometeo, Alborada espiritual, ¡Perdón!, Vencido, Las siete palabras y dos más, ou sonetos como Al destino, Fe e Resignación. E se, neles, Unamuno mostrou-se “mais filósofo que poeta”, qual seria, pois, a qualidade poética de que tais versos carecem? Ou ainda: em qual sentido a verve poética daqueles autores seria superior à de Unamuno? A verdade é que, nos referidos poemas, a expressão não poderia ser mais vigorosa, nem a motivação mais autêntica. E se isso não coloca Unamuno no primeiro escalão dos poetas espanhóis, talvez seja conveniente criar um novo grupo para inseri-lo — e será este o grupo dos poetas cuja leitura é mais significativa para o leitor.

Ortega y Gasset, Antonio Machado, Pío Baroja…

Ortega y Gasset, Antonio Machado, Pío Baroja… a literatura espanhola deu-me leituras memoráveis. Nenhuma, contudo, provocou-me sentimento parecido ao que experimentei após o contato com Unamuno, o qual pareceu-me um familiar. Há, nas letras, casos assim: uma fronteira separa a admiração, a empatia, o apreço, deste sentimento inconfundível de identificação. E é sempre especial ver num autor um membro da própria espécie, cujas inquietações são aquelas intimamente sentidas, cuja expressão vocaliza algo que se poderia dizer. Raro, mas quando ocorre evidencia que não há individualidade intransmissível; sempre houve e sempre haverá semelhantes que, através da literatura, possam compreender.